terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Modernismo Brasileiro

Quando falamos em Modernismo, na Literatura, vale lembrar que, didaticamente, fazemos uma divisão: pensamos o movimento modernista como uma marca entre o Parnasianismo e a nossa modernidade literária. Ele surge como uma proposta em oposição aos ideais estéticos do Parnasianismo, ao mesmo tempo que anuncia pressupostos da poesia de 30 e do romance de 30. Devemos, portanto, observar que o Modernismo, em si, é a concretização, ou formalização, de ideais estéticos livres, ou seja, que priorizam a forma livre e o conteúdo prosaico.

A Semana de Arte Moderna, que, na verdade, resumiu-se a três dias, dá início a esse posicionamento literário e é chamada, muitas vezes, de Primeira Fase Modernista. Após ela, com as marcas essenciais, na literatura, de Oswald de Andrade e de Mário de Andrade, chegamos à maturidade literária.

Adentramos, pois, o que alguns manuais de literatura chamam de Segunda Fase Modernisa, momento em que temos uma forte produção de prosa e de poesia, sem, no entanto, haver uma unidade temática ou estética. Há, sem dúvida, um aspecto convergente: a busca da liberdade formal.

Na poesia, portanto, temos Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles (a primeira mulher a entrar no cânone), Vinicius de Moraes, Mário Quintana, Manuel Bandeira, Murilo Mendes. No romance, o denominado Romance de 30, busca marcas da verossimilhança e, por isso, é chamado, também, de neorealismo. Os autores são diversos e não possuem uma proposta unificada. Entre eles, temos Graciliano Ramos, Raquel de Queirós, Dyonélio Machado, Erico Verissimo, Jorge Amado...

Outro aspecto que vale lembrar são os manifestos, relacionados às propostas da Semana de Arte Moderna. Eles podem ser considerados um gênero textual, no qual os artistas, tanto na Europa (Vanguardas Européias), quanto no Brasil, usaram para anunciar seus ideais estéticos. Abaixo, temos alguns excertos:

MANIFESTO DA POESIA PAU-BRASIL, de Oswald de Andrade (1924)
“A poesia existe nos fatos. Os casebres de afetação e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos (...) Ágil o teatro, filho do saltimbanco. Ágil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia. A poesia Pau-Brasil. Ágil e Cândida. Como uma criança (...) A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos (..) Uma única luta – a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a poesia Pau-Brasil, de exportação (...) O trabalho contra o detalhe naturalista – pela síntese, contra a morbidez romântica – pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento teórico, contra a cópia, pela invenção e pela surpresa. Uma nova perspectiva”.


MANIFESTO ANTROPOFÁGICO, de Oswald de Andrade (1928)
“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente (...) Tupi or not tup that is the question (...) Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago (...) Contra todos os importadores de consciência enlata (...) Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comi-o (...) Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade (...) Contra a memória fonte do costume. A experiência pessoal e renovada”.


PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO, de Mário de Andrade (1921)

“Leitor, está fundado o Desvairismo. Este prefácio, apesar de interessante, inútil (...) Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu insconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. Daí a razão deste Prefácio (...) Um pouco de teoria? Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de mdeir tantas sílabas, com acentuação determinada (...) Minhas reivindicações? Liberdade (...) Bilac representa uma fase destrutiva da poesia; porque toda perfeição em arte significa destruição (...) O nosso primitivismo representa uma nova fase construtiva”.



O Modernismo




Rodrigo Gonçalves Beauclair
Doutorando em História Cultural pela UFRJ


“Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos,de todos os coletivismos.De todas as religiões. De todos os tratados de paz.”
Oswald de Andrade

As frases acima compõem o Manifesto Antropófago publicado na Revista de Antropofagia em maio de 1928. Nestas supracitadas frases reverberam a essência de um movimento que no Brasil, iniciado com a Semana de Arte Moderna de 1922, representava uma centelha de expressão do que se chamava de Modernismo, movimento artístico-cultural que mobilizou intelectuais e artistas, tanto na Europa como na América Latina.
O contexto histórico de sua manifestação é marcado pelas transformações tecnológicas e científicas na Europa no correr das primeiras décadas do século XX. Essas mudanças impulsionadas pelo desenvolvimento do capitalismo que entra em crise, dando início à Primeira Guerra Mundial (1914-1918), encerram a belle époque. No seu lastro eclode a Segunda Guerra (1939-1945), que nos seus anos intermediários desperta o anseio de interpretar e expressar a realidade de forma diferente.
A pujança dessas transformações nas artes visuais era manifestada pelos diversos movimentos que emergiam e constituíam-se na Europa como as vanguardas- o fovismo, o expressionismo, o purismo e o construtivismo. Junto a esses surgiram três que são epítetos dessa atmosfera profícua de criatividade e originalidade estética: o futurismo, liderado pelo italiano Marinetti, exaltava a velocidade e a máquina; o cubismo, proveniente da pintura, buscava fracionar a realidade, remontando-a a seguir através de formas geométricas superpostas; o dadaísmo, liderado por Tristan Tzara, negava a lógica, a coerência e a cultura, como meio de oposição à guerra. O termo dada, que não significa nada, era aplicado à arte como afirmação do não reconhecimento de nenhuma teoria e declarava a morte da beleza; o surrealismo, lançado no ano de 1924, por André Breton, com o Manifesto do Surrealismo, pregava o apego à fantasia, ao sonho e à loucura. Utilizava também como meio de expressão, a escrita automática provocada pelo impulso do artista, que registra tudo o que lhe vem à mente, despreocupado com a lógica.
Na América Latina essa onda plural e multicromada representou uma vigorosa corrente de renovação cultural e estética. Os diferentes grupos, formados por intelectuais e artistas, muitos vindos da Europa, expressaram os conceitos e ideais do modernismo, que se constituía no conhecimento e debates das realidades nacionais através de manifestos, revistas, exposições e conferências. Entre as revistas, as mais significativas foram:
Klaxon (1922) e a Revista de Antropofagia (1928), em São Paulo; Actual e El Machete (1924), no México; Martín Fierro (1924), em Buenos Aires, e a Amauta (1926), no Peru. Esse caleidoscópio de manifestações produziu um intenso movimento de busca das raízes e representação dos elementos sociais, culturais e históricos constitutivos do material a ser empregado no desenvolvimento das manifestações estéticas de cunho nacionalista.
No Brasil o modernismo atravessou três fases distintas, caracterizadas por peculiaridades históricas e estéticas: a primeira fase (1922-1930), a segunda fase (1930-1945) e a terceira fase (pós 1945), refletindo os movimentos das conjunturas sociais, econômicas e políticas, tanto interna quanto externa.
A primeira manifestação pública dos modernistas brasileiros foi na
Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, onde foram realizadas exposições, recitais de poesia, concertos e conferências, que abarcavam temas que evocavam Villa-Lobos, na música, Brecheret na escultura e Di Cavalcanti, Anita Malfatti e outros na pintura. O objetivo manifestado na Semana era o de se opor ao Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo que ainda estavam presente.
Alguns acontecimentos, anteriores a 1922, preparam a trajetória do Modernismo; fatos, especificamente, ligados à estética renovadora, se multiplicam. Em 1912,
Oswald de Andrade traz da Europa a novidade futurista; em 1913, o pintor Lasar Segall faz uma exposição negando a pintura acadêmica. Em 1917, a exposição dos quadros de Anita Malfatti, em São Paulo, destacando a pintura expressionista, assimilada na Europa coloca, de um lado, os que apóiam o novo e, de outro, os conservadores.
No ano de realização da Semana de Arte Moderna é fundada a
Revista Klaxon, uma revista mensal de arte moderna, de perfil futurista e anunciadora de uma arte de caráter internacional e inspirada na industrialização. Posteriormente, é lançado o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, que usando a expressão “a selva e a escola”, abordava de maneira nova o Brasil a partir de sua cultura mulata e sua atmosfera tropical. Esses elementos evidenciavam o contraste existente com a indústria moderna. A consideração desses elementos culturais e estéticos representava uma mudança de consciência dos poetas e artistas ricos e bem-educados, itinerantes na atmosfera européia e nos seus modos e padrões. Contudo, essa consciência se alarga em 1928 com o Manifesto Antropófago, também de Oswald de Andrade, que nos convidava a devorar nosso colonizador, guardando em seu cerne as contradições do brasileiro: moderno∕primitivo, indústria∕indolência, centralismo∕regionalismo, etc.. É importante destacar o papel de Tarsila de Amaral na pintura neste momento, ilustrando no manifesto supracitado a figura do Abaporu, ícone de sua busca pela expressão das realidades que estavam contidas no que se estavam repensando como Brasil.
A segunda fase do movimento modernista no Brasil, estritamente ligado ao desenvolvimento da geração de 1922, apresenta com evidência o regionalismo, expressado fortemente por meio da poesia e da prosa, mas não desconectado com a conturbada conjuntura internacional. São representantes dessa fase:
Mário de Andrade, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, entre outros, na poesia; e José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e Érico Veríssimo, na prosa.
Nos anos posteriores a 1945, no cenário cultural e artístico do Brasil, começa um contra-movimento aos ideais do modernismo disseminados pela geração de 1922, tanto na poesia quanto na prosa.
Na poesia, o concretismo, a poesia-práxis, o poema-processo, o poema-social, a poesia marginal e os músicos-poeta pregam o fim dos elementos da poesia tradicional, o verso e a rima, buscando a exploração dom espaço em branco com a decomposição e relação das palavras. Destacam-se nesse grupo
João Cabral de Melo Neto e Cassiano Ricardo. Na prosa, prioriza-se o realismo fantástico e o romance de reportagem, discutindo os conflitos entre o homem e a modernidade. No grupo, destaca-se Clarice Lispector, Guimarães Rosa, como também Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Rubem Braga, entre outros.
O modernismo, como um movimento de longa duração de discussão, crítica e renovação cultural e artística, delineou e difundiu realidades brasileiras e seus personagens dispostos na imensa área geográfica que se denomina Brasil, não significando somente um projeto modernizador, mas construtor de uma possível identidade nacional brasileira.

Revisão!

Nosso ensino regular de literatura, principalmente no Ensino Médio, prioriza a historiografia. Para aqueles que lecionam em escolas ou em cursinhos, isso não é novidade - tampouco para os alunos, muitos dos quais, talvez, não saibam exatamente o significado de historiografia, mas sabem que foram "convidados" a ler Os Lusíadas e O Guarani.
Não sou contra esse sistema de ensino, pois sei que a noção cronológica é essencial. Entretanto, se nosso objetivo como professores é a formação de leitores, a famosa historiografia pode ser um problema. Quase intuitivamente, sabemos que no Ensino Fundamental, principalmente até a quinta série, a leitura tem um tom positivo - ir à biblioteca e assistir à contação de histórias é uma festa. Crescemos, chegamos ao intervalo entre a infância e a adolescência: sétima e oitava séries. Nesse momento, desfilam as adaptações e algumas obras autorais. Fato: nem sempre essa vivência é traumática.
No Ensino Médio, no entanto, o horzionte-de-expectativa-vestibular anuncia seus contornos e os períodos literários desfilam. Sei que no primeiro ano do Ensino Médio há um trabalho de maior fôlego com os gêneros. Infelizmente, ele não é suficiente para demonstrar aos alunos que literatura não é sinônimo de José de Alencar.
Sem dúvida, Alencarzinho e suas personagens são importantíssimos para pensarmos a contrução da nossa literatura. Essa reflexão é explícita para mim, aluna de LETRAS, e não para um aluno do Ensino Médio. Para os jovens que vão diariamente para a sala de aula colar os trasieros em cadeiras, a literatura deve, acredito, surgir como sinônimo de autores contemporâneos.
Há uma grande discussão transapassando essas palavras: letramento e letramento literário. Primeiramente, capacitar o estudante a ler e a escrever para, com isso (como diria o Professor Garcez) fazer a vida. O letramento literário (teoria para ser lida nestas férias!) indica que devemos ter a mesma preocupação com a leitura da literatura. Ler o jornal diariamente é diferente de ler um romance e um conjunto de poesias. Inevitavelmente, o processo de produção de sentidos será outro.
A escola, ambiente problemático, deve, nas disciplinas de português e de literatura, proporcionar essas vivências de leitura para que, posteriormente, o aluno decida se quer ser um leitor lietarário ou não.
Hoje, enquanto ministrava uma aula de redação, dicutíamos um texto maravilhoso, "Ladrões de Livros", de Ruy Tapioca, que trabalham, justamente, a presença, ou melhor, a ausência, da leitura no Brasil. Um dos meus alunos afirmou algo parecido com isto: o estudante deve ter a capacidade de leitura desenvolvidada para que, futuramente, ele possa refutar o objeto artístico literatura do mesmo modo que ele diria não a um filme ou a uma mostra de arte contemporânea.
A ideia é genial. Façamos o esforço para formar leitores, mas não venhamos a condenar aqueles que optam pela tv.
Toda essa conversa, talvez chata, para dizer que aqui está um arquivo historiográfico de revisão - do Parnasianimo ao Modernismo.


Para aqueles que ficaram curiosos, o texto do Ruy Tapioca, retirado do Jornal Rascunho:
LADRÕES DE LIVROS

A discussão, intelectualizada, rolava animada na mesa de bar, sobre tema controverso - Por que os brasileiros leem tão pouco? - quando o aparelho de TV, preso à parede, anunciara: "Está chegando a hora de você espiar! Você vai poder novamente espiar!", convocava o âncora do reality show de maior audiência da televisão brasileira, do Pico da Neblina à Lagoa dos Patos.
Um dos frequentadores da mesa aproveitara a deixa da chamada da TV: "Eis aí um dos ladrões de livros no Brasil: esse pastiche orwelliano, campeão de audiência da mídia eletrônica tupiniquim, nada mais é que um simulacro do mais abjeto e pretenso neonaturalismo! Por que essa excrescência faz tanto sucesso aqui enquanto a literatura é um permanente e retumbante fracasso?", escarnecera vibrando um gesto grosseiro para a TV.
O programa televisivo exibia a intimidade de um grupo de participantes anônimos, confinados numa casa-estúdio, convidados a disputar gordo prêmio em dinheiro, com a única obrigação de trocarem livremente entre si, com cínica espontaneidade, toda sorte de abobrinhas, futilidades, neuras, delações, fuxicos, intrigas pessoais e vazios de espírito, além de filosofias existenciais - de profundidade equivalente à de um lago onde formiguinhas atravessariam com água pelas canelas, como escreveria o saudoso Nelson Rodrigues.
As câmaras de TV do programa - com serventia de buracos de fechadura eletrônicos - estimulavam o acampanar indiscreto dos telespectadores.
"Qual o valor cultural que um lixo como esse agrega?", insistira o crítico do programa.
O antropólogo da hora, sentado ao lado, antecipara-se na resposta: "O programa é um campeonato de perde-ganha, espécie de torneio mata-mata: visa a eliminar o concorrente e salvar a própria pele, por meio da votação dos telespectadores. Trata-se de torneio lúdico onde os participantes geralmente exibem indigência cultural e demonstram espontânea mediocridade, perfis e ingredientes que o cidadão médio brasileiro se compraz em observar e julgar".
O crítico do programa insistira: "Por que o brasileiro prefere esse tipo de lazer à leitura de um livro?"
O sociólogo de bar, do outro lado da mesa, interviera: "Simples: somos, em tese, um povo mais atraído por imagens que pela escrita, mais seduzido pelo barulho que pelo silêncio, mais devotado à galhofa que à sensatez, mais inclinado ao impulso que à reflexão. Nesse quadro, não há lugar para a literatura", arrematara.
O sociólogo de momento refutara: "Generalizações exageradas, ponderáveis como insights, mas desprovidas de constatação científica: o problema do baixo índice de leitura no Brasil, e da desconsideração do livro como instrumento de lazer, tem origem multidisciplinar!"
"Explique-se!", exigira o jurista do grupo.
"Existem fatores históricos, econômicos, sociais, culturais, mercadológicos, e até climatológicos, para justificá-los. Os colonizadores do país só permitiram a criação da primeira escola no Brasil, última nação sul-americana a criar estabelecimentos de ensino e bibliotecas públicas, após 300 anos de seu descobrimento, mesmo assim porque aqui aportou a família real, escorraçada pelas tropas de Napoleão, a quem os brasileiros deveriam erigir uma estátua, pelo providencial e humilhante passa-fora infligido à corte portuguesa! Por essa razão histórica, livro e literatura sempre tiveram por aqui ressaibo de coisa proibida, inacessível, inconveniente..."
O economista de plantão interviera: "Prefiro a explicação econômica: livro no Brasil é caro, o povo tem poder aquisitivo reduzido, existem dezenas de milhões de analfabetos broncos e funcionais no país, gente para quem a leitura desperta a mesma excitação que a experimentada por um eunuco quando assiste ao rebolado de uma odalisca", motejou.
"Razões climatológicas?", indagara o jurista, curioso.
"Sim, é razoável ponderar que os calores que aqui fazem não convidam à leitura, como acontece nos países de climas frios. Somos mais afeitos à prática de lazer ao ar livre, passeios em shoppings refrigerados, bate-papos em choperias, estádios, praias, piscinas e quejandos".
O economista recalcitrara: "Somos um país esquizofrênico: temos mais editoras que livrarias, mais editoras que bibliotecas! Não há nada que o brasileiro ache mais enfadonho que uma biblioteca: alega que lá não se pode conversar, tem que se suportar um incômodo silêncio, não se permite atender celular! Batucar nas mesas, nem pensar!"
O jurista resolvera meter a colher na discussão: "De fato, leitura exige isolamento, ausência de barulho, não se pode ter conversa em volta. Impossível manter a concentração na leitura comendo um pedaço de pizza ou assistindo TV. Espertamente, os donos de cinemas no Brasil, para se ajustar aos hábitos da população, adaptaram as poltronas das salas de exibição para funcionarem como mesinhas de lanchonete: durante a exibição do filme os espectadores consomem baldes de pipocas, a produzirem antropofágicos ruídos! Avisos nas telas pedem, debalde, que os espectadores desliguem seus celulares, sem êxito: durante a projeção ouve-se toda sorte de musiquetas de chamadas de celulares: La traviata, Mamãe eu quero, Hino do Flamengo, Tô nem aí, Levantou poeira, e quejandos. Já ouvi chamada de celular que imita o som da descarga de uma privada! Somos um país de pândegos, como pode haver lugar para literatura?".
O pedagogo da hora, até então em silêncio, resolvera intervir: "A falha está na escola, no sistema de ensino adotado: exige-se dos alunos leitura obrigatória de romances nacionais. São compelidos a ler Machado, Macedo, Raul Pompéia, José de Alencar. Resultado: tomam ojeriza pelo livro, não há quem não se revolte com tamanha tortura pedagógica: a literatura deve despertar prazer, não pode ser imposta como obrigação".
O crítico do reality show insistira: "Mas por que então o brasileiro gosta tanto de novela de TV? Aquilo também não é literatura?".
O antropólogo de roda de chope antecipara-se: "Novela de TV não dá trabalho para ser compreendida: a trama já vem prontinha, suavemente explicada com som e imagem, sem necessidade de leitura de legendas. Já vem dividida em suaves e preguiçosos capítulos diários, entremeados por intervalos comerciais de xampus, cervejas, eletrodomésticos e planos de saúde, que têm o condão de distrair despertando interesse de consumo. A novela de TV tem outras vantagens em relação ao livro: você pode assisti-la enroscado numa companhia. Se o capítulo estiver muito chato, pode dispensá-lo para fazer outra coisa, sem prejuízo do enredo, que é formado por tantas histórias paralelas que a eventual perda de um ou dois capítulos não representa problema, diferentemente de um romance: se você não entendeu, é obrigado a voltar, reler, isso dá trabalho...".
O jurista aduzira outra vantagem para as novelas televisivas: "O telespectador sabe que pode interferir no curso de uma novela, no destino dos personagens, porque o autor a escreve ao sabor das pesquisas de audiência: se o personagem não agradou, providencia sem embaraço a morte do infeliz; se a empregada doméstica está com dificuldades para conquistar o patrão rico, faz-se um pirlimpimpim tupiniquim, e pronto: o homem apaixona-se, sem detença, pela sedutora serviçal. Nas novelas de TV brasileiras tudo é permitido, nada é impossível: rico se apaixona por pobre, desemprego não existe, negro não sofre preconceito racial, mãe sempre encontra filho desaparecido, a justiça é ágil, a polícia é eficiente, o político é honesto, adolescente se apaixona por coroa, tem até argentino que sofre de complexo de inferioridade! Já com a literatura não se pode interferir na história: para ser compreendida, precisa ser lida, em recolhido silêncio, exigindo constantes reflexões para construção do imaginário".
Um dos participantes do grupo atacara de Sêneca, com ar de enfado e pedante latinório: "Otium sine litteris mors est et vivi hominis sepultura: o lazer sem as belas-letras é como a morte e a sepultura do homem vivo. As áreas mais nobres do cérebro humano só se expandem com a leitura: não há hipótese de alguém adquirir conhecimentos fundamentais, ou sólida formação educacional, sem interesse por literatura. Sêneca tinha razão: um homem que não lê é uma espécie de aleijão social, meio-cidadão, um deficiente cerebral".
O gozador do grupo olhara o relógio e disparara: "São horas, vamos pedir a conta. Razão tinha Bacon quando escreveu que os amigos são ladrões do tempo: roubam o tempo da gente! Poderíamos estar todos agora a desfrutar da leitura de um bom livro, em vez de ficar aqui destilando filosofias de botequim. Garçom! A saideira!".

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

TEATRO: A SERPERTE, de Nelson Rodrigues

O universo de Nelson Rodrigues está bem representado pelos atores, que estabelecem um clima tenso, utilizando voz e corpo, pouca luz e pouca música. A sexualidade exacerbada e a dúvida “afinal, quem é o desajustado” são o mote da peça.

Nesta montagem de ato único, Nelson apresenta duas irmãs e um homem – um triângulo sexual – e não amoroso! – suscitado graças à bondade de uma mulher e sua atitude diante da irmã – Guida e Lígia, respectivamente. O final, como sempre, é arrebatador e violento, é claro.

Pessoal, fica o convite:

Cia. Teatrofídico e a montagem A Serpente, de Nelson Rodrigues (última peça do autor, na década de 70).

Direção: Eduardo Kraemer
Elenco: Renato Del Campão, Rejane Meneghetti, Ágata Baú e Maiqul Klein.


ONDE? Sala 302 da Usina do Gasômetro (Av. João Goulart, 551).
QUNADO: sábado, 21 de novembro.
QUANTO: R$5,00 para estudantes.

Para aqueles que forem, nos vemos lá, 19:30!



http://teatropoa.blogspot.com/

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Dissertação: uma introdução.

O texto é meio de exprressão. É por meio dele que o sujeito organiza o seu discuro. É por meio da leitura que o leitor cria significados, os quais são, acredito, uma negociação entre a tríade (como o sistema literário autor/obra/público) escritor/texto/leitor.
Sabemos que no vestibular somos convidados a elaborar um texto, de caráter dissertativo, para demonstrarmos nossa capacidade expressiva por meio das palavras. Sendo assim, os materias aqui disponibilizados tentam auxiliar o criador de um texto - principalmente, o argumentativo/dissertativo.
Os trabalhos apresentados, portanto, objetivam, essencialmente, a leitura e a discussão de ideias.

Boa leitura!

Autores Conteporâneos

Sem dúvida, essa nomenclatura, autores contemporâneos, é muito abrangente, mas, acredito, é o suficiente para nos referirmos à produção literário no Brasil após a década de 30. É claro que, aqui, selecionei poucos autores, os mais clássicos-canônicos.

Essa "classificação", no entanto, indica uma característica literária: a partir de agora, colocar os autores e suas propostas estéticas em "caixinhas" é muito difícil! O mais importante é ler as obras. Os velhos quadros de características, adorados pelos livros didáticos, passam a ser, em certa mediada, inúteis.

Portanto, a partir dessas pequenas explanações teóricas, fica o convite: ler a obra, ao menos um conto, ao menos uma crônica, ao menos uma poesia e, quem sabe, um romance ou um teatro!

Aqui, então, fica o sobre o que chamamos de LITERATURA DE TOM REGIONAL - João Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro - e LITERATURA DE TOM URBANO, Clarice Lispector, Lya Luft e Lygia Fagundes Telles.


LEITURA OBRIGATÓRIA - UFRGS 2010
Antes do Baile Verde, de Lygia Fagundes Telles

Abaixo, segue uma ilustração de Gus Morais - ilustrador que encontrei na internet. A imagem refere-se ao conto que dá título ao livro.



Romance de 30

Neste período historiográfico denominado Romande de 30 temos diversos autores reunidos. De fato, não houve uma proposta estética unificada, ou seja, os autores não se organizam em grupos, como na Arcádia ou na Semana de Arte Moderna de 1922. Sendo, as características que organizamos como referentes a esse momento são observações posteriores à produção dos livros.
Ainda assim, podemos perceber pontos de convergência entre os autores: a observação da realidade brasileira, a observação do regional, principalmente do sertão nordestino.
MOMENTO HISTÓRICO: mundialmente, vivia-se uma crise. As projeções da década de 20, que anunciavam o progresso, foram retalhadas pela Primeira Guerra Mundial. Em seguida, veio, em 1929, a quebra da Bolsa de Nova Iorque e o fortalecimento dos ideais totalitários de governo (Nazi-fascismo). No Brasil, por sua vez, exprerenciávamos o declínio da República Velha (República “café-com-leite”, 1989-1930). Passamos pelo Movimento Tenentista (1922) e pela Coluna Prestes (1928) até a Revolução de 30, quando o acerto das eleições entre São Paulo e Minas Gerais foi quebrado, causando confusão política. O desfecho foi uma revolução da elite: Washington Luís foi deposto, Júlio Prestes, que havia ganho as eleições, teve a posse impedida, para, em seguida, Getúlio Vargas assumir a presidência. Trata-se, pois, de um momento de efervescência política. A literatura, manifestação cultural, não desvencilhou-se desse momento. Pelo contrário: observou-o! Os artistas sentiram-se convidados a criar obras que, de alguma forma, estivessem referenciadas na realidade.

PROPOSTA ESTÉTICA: os artistas intimados e interessados pela realidade, buscaram, mais uma vez, a verossimilhança como suporte para suas criações. Como esse era um traço do Realismo-Naturalismo, diz-se que o Romance de 30 é neorealista, pois cria romances, essencialmente, verossímeis. Seguindo a proposta de Euclides da Cunha, o regionalismo vigorará nas obras. Os autores brasileiros observarão diferentes ambientes nacionais, principalmente o universo rural, agrário, para sua criação estética. Diferentemente de José de Alencar regionalista, ou de Euclides da Cunha jornalista, o regionalismo da década de 30 trará tipos sociais, mas avançará na descoberta psicológica dessas personagens. A ênfase estará, sem dúvida, na denúncia social, na observação das mazelas do País – a proposta ideológica acima da proposta estética.
A produção será em prosa: os romances. A maior parte deles fugirá ao experimentalismo proposto por Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Teremos enredos lineares, que permitam o diálogo com o leitor, ou seja, a livre fruição da obra. Há, sem dúvida, uma unidade de proposta estética. Entretanto, os muitos autores desse período elaborarão diferentes estilos e observarão, inclusive, a região urbana.

Consciência Sociológica: teremos a publicação de obras que pretendem compreender o País. São elas: Casa-grande e Senzala, de Gilberto Freyre (1933); Evolução Política do Brasil, de Caio Prado Júnior (1933); Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (1936). Essas produções demonstram que os nossos intelectuais estavam, de fato, a observar a realidade brasileira.

LEITURAS OBRIGATÓRIAS - UFRGS 2010
Fogo Morto, de José Lins do Rego
Porteira Fechada, de Cyro Martins

O site Domínio Público disponibiliza alguns arquivos bem interessantes. Principalmente a categoria vídeos de literatura. Lá há uma séria "Mestres da Literatura Brasileira" - pequenos documentários sobre os autores. Acesse o vídeo sobre
José Lins do Rego.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

João Cabral de Melo Neto

Os manuais de Literatura anunciam João Cabral de Melo Neto como um poeta da Geração de 45. Sem muitas definições historiográficas, o que nos interessa, aqui, é a observação da sua estética: por vezes antilírica, como alguns críticos o chamam; por vezes com tom de observação social - O Cão Sem Plumas e Morte e Vida Severina.

A imagem da pedra, dizem, é perfeita para entendermos Cabral: tudo que precisamos para mergulhar em sua poesia está ali, diante dos nossos olhos, facilmente apreensível, observável, tão concreto como uma pedra. De fato, suas comparações são claríssimas, principalmente nos poemas que tencionam o rio Capibaribe.

Alguns arquivos: apresentação sobre João Cabral de Melo Neto.

Promessa Antiga!

Sem dúvida, eu gostaria de escrever muito mais do que escrevo. No entanto, sempre falta tempo! - Quando eu crescer, espero aprender a me organizar.
Pois bem, o Devaneio tem ficado um pouco quietinho, mas, agora, pretendo usá-lo com mais frequência para disponibilizar alguns materiais - serão pequenos resumos referente às aulas de Literatura e de Redação que ministro. Muitos dos arquivos não irão com as devidas referências e, desde já, digo que não estou roubando a "fala" dos críticos, mas, de fato, o material é da ordem da simplicidade e da praticidade - nada de ensaios acadêmicos.
Espero que o "pequenino" material seja útil.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

"Sob um plástico de bolhas...", de Ana Carolina Lersch Eidam

De volta ao DEVANEIO LITERÁRIO, minha ex-aluna, hoje colega de trabalho, Ana Carolina foi (ao mesmo tempo amigável e forçosamente) convidada a escrever uma resenha sobre a montagem de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, que passou recentemente por Porto Alegre. Dirigida por Gabriel Villela e composta por elenco estelar, com Marcello Antony, Leandra Leal e Vera Zimmermann nos papéis principais, a peça traz achados que, ao mesmo tempo que recuperam o texto original em toda a sua excelência, consagrando o papel de Nelson como nosso maior e mais importante dramaturgo de todos os tempos, dão novo olhar a alguns aspectos antes apenas sugeridos e outros sequer imaginados, demonstrando que o respeito e a fidelidade ao texto, no teatro, não são as marcas que mais sustentam uma montagem teatral, pois essa deve trazer algo novo para justificar a sua existência. Dentre carnavalização, uso do bolero e samba-canção, entre outros elementos, Ana escolheu... O plástico.

*

Aos vinte e três dias do mês de agosto desse ano, o clássico de Nelson Rodrigues Vestido de Noiva assumiu uma nova roupagem, ao menos para mim. Muito além do grande elenco que compunha a peça e sua incrível interpretação, dos cenários e figurinos muito bem elaborados, o que mais chamou a atenção foi, sem dúvida, o véu da noiva.

A loucura das idas e vindas no tempo, as confusões de Alaíde, os passeios no subconsciente de Madame Clessi, tudo isso compõe a complexidade do texto de Nelson e o torna único. A mistura de planos da realidade, memória e alucinação expõem, aos que conseguem acompanhar, as possibilidades e impossibilidades da mente humana que pode, em um instante, perder completamente o nexo e ir por caminhos inimagináveis. Ao longo da peça, Nelson desdobra uma história a princípio completamente sem sentido que vai se tornando uma teia de histórias cruzadas, refletindo a podridão das relações humanas, muitas vezes mais malucas que o próprio delírio de Alaíde.

E a peça fez jus ao texto. Não que tenha sido perfeita, longe disso. Até porque a minha Lúcia seria muito mais intensa, humana e imperfeita e o Pedro muito menos “abobado” e muito mais esperto. Sem perder, no entanto, a integralidade do texto, as imperfeições trouxeram um novo tom para a peça, juntamente com o cenário no qual os atores participavam e, é claro, o véu da noiva.

A genialidade de ter utilizado um simples plástico de bolhas para trazer toda a idéia da peça, da fragilidade das relações humanas e, principalmente, do amor e do casamento, deve-se ao fato de ter criado, inconscientemente, a idéia dessas sensíveis relações que tão facilmente como o plástico perdem a graça, o sentido e as bolhas. O plástico que, assim como o véu da noiva, servia para guardar e preservar algo valioso, tão logo perde sua utilidade e torna-se comum como qualquer outro.

Tudo isso mesclado com uma ótima trilha sonora, a fidelidade à obra e o clima tenso criado ao longo da peça, fizeram desse espetáculo não apenas mais um dentre os tantos que criam e recriam Nelson Rodrigues, mas algo tão único como o seu autor. Acabaram-se as bolhas, fica o desejo de ver algo assim novamente.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A Hora e a Vez dos Trabalhos Acadêmicos

Pois bem, os quadrinhos, mais uma vez!
Primeiramente, uma comemoração: na 21ª HQ Mix, que aconteceu no dia 21 de Agosto, em São Paulo, entre os premiados, desfilaram os já citados Fábio Moon e Gabriel Bá, prêmio Destaque internacional, e o Rafael Grampá, prêmio Melhor Desenhista Nacional e Melhor Álbum Especial Nacional.
Como o site oficial do evento anuncia, o Troféu HQMIX é o prêmio mais importante das HQs nacionais, algo parecido com o “Eisner Awards” ou um “Oscar dos Quadrinhos Nacionais”. Nesse evento, no entanto, o acontecimento que mais me interessa é a premiação da produção acadêmica - TCC, mestrado e doudorado. Assumindo uma atitide inovadora, desde sua criação, valoriza produções teóricas referentes ao universo do desenho. Em 2003, no entanto, formalizou-se a opção por observar as reflexões acadêmicas. Segundo as informações do site da HQ Mix, o interesse foi grande e as três categorias foram adotadas.
Na última edição, os vencedores foram:
  1. o TCC "A quarta dimensão do trabalho de Breccia", defendido por Pedro Franz Broering, do curso de Design Gráfico da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis;
  2. a dissertação de mestrado "Considerações sobre sociedade e tecnologia a partir da poética e linguagem dos quadrinhos de Lourenço Mutarelli no período de 1988 a 2006", defendida por Líber Eugenio Paz, do curso de Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, em Curitiba;
  3. a tese de doutorado "O potencial das histórias em quadrinhos na formação de leitores: busca de um contraponto entre os panoramas culturais brasileiro e europeu", defendida por Valéria Aparecida Bari, do curso de Ciências da Informação e Documentação da Universidade de São Paulo.
Essas categorias de premiação são extremamente importantes, pois podem desconstruir o preconceito existente nos institutos acadêmicos - os quais são muito conservadores. Lamento, apenas, que nenhum dos premiados seja da área da LETRAS. Quem sabe, no futuro, eu não receba um prêmio desses?!! (hehe)
Além disso, a presença de Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva, secretária de Educação Básica do MEC e responsável pela área que cuida das listas do PNBE, menciou a polêmica dos quadrinhos nas escolas e enunciou: "Não podemos ceder à pressão de falsos moralismos, de politicamente corretos". Falando nisso, é importante citar o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) de 2009. No Ensino Médio e no Ensino Fundamental teremos muitas HQs! Entre elas, teremos duas obras dos Bá - "10 pãezinhos - Meu Coração Não Sei Por quê" e "O Alienista", belíssima transcriação do conto de Machado de Assis.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A Hora e a Vez dos Quadrinhos Nacionais

Para quem ainda acha que histórias em quadrinhos tem a ver apenas com heróis, super-heróis e seus dilemas, resta uma triste constatação: esses não lêem quadrinhos há muitos anos; ou talvez nunca pararam para perceber que este é apenas mais um canal de expressão artística que, como tal, guarda os mais variados temas, desde dramas surreais do universo de seres super poderosos, passando por personagens que talvez só tenham tanta graça por serem, justamente, iguais a nós.

No ambiente dos super-heróis, a literatura em quadrinhos passou por uma profunda revisão, principalmente através dos roteiros de Allan Moore (co-criador de Watchmen, V de Vingança, A Liga Extraordinária, entre outros) e da violência despudorada de Frank Miller (o homem que reinventou o Batman em O Cavaleiro das Trevas, o Demolidor em Demolidor - O Homem sem Medo, além de observar como nasce o heroísmo em 300 de Esparta e revisitar o noir na série Sin City); através do inigualável universo onírico de Neil Gaiman (de Sandman), os quadrinhos chegaram a obter status de arte de vanguarda; por outro lado, muitos autores percebam que os gibis também poderiam falar sobre o "nada", a vida comum e as pequenas ocorrências do prosaico, como nas obras de Harvey Pekar e Robert Crumb. Will Eisner, por exemplo, é o sinônimo dessa amplitude temática do gênero em questão: é a principal referência desse meio, criou o conceito de "romance gráfico" (graphic novel), deu as bases para a arte sequencial ser vista como algo original, teorizou sobre ela, obteve imenso sucesso com o herói Spirit, mas resolveu também explorar a miséria humana e a luta pela sobrevivência em espaços totalmente verossímeis, como na "trilogia do Contrato com Deus"; foi um contador de histórias sem limites, que falou sobre quase tudo e foi pioneiro na adaptação de clássicos da literatura para HQ'S. Além disso tudo, a literatura em quadrinhos continua produzindo obras-primas, em todos os estilos acima e dialogando com aspectos centrais da sociedade, como Maus, de Art Spiegelman, sobre o Nazismo (que ganhou o prêmio Pulitzer, considerado o maior status literário que uma obra pode alcançar internacionalmente), e Persépolis, de Marjane Satrapi, um painel da geopolítica do Irã durante a segunda metade do século XX sob o olhar de uma garota. Nessas diferentes vertentes, bebendo em todas essas fontes, estão alguns dos maiores talentos artísticos brasileiros do novo século, alguns deles trabalhando arduamente há mais de uma década a fim de consolidar o seu trabalho, garimpando visibilidade com algumas dificuldades, culpa de um preconceito ridículo para com o universo dessas histórias, principalmente no Brasil, onde a maior referência conhecida desse segmento são os personagens inesquecíveis de Maurício de Souza (Mônica, Cebolinha, entre outros que povoam o imaginário nacional).

Alguns desses grandes novos talentos fazem parte de um time que está renovando o gênero no país, mais pelo ato de produzir em si do que propriamente de vender, afinal, no Brasil, esse é um mercado difícil e visto de forma equivocada, ao contrário dos Estados Unidos, onde a maioria desses artistas produz, vende melhor, tem reconhecimento e ganha prêmios. Os gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon, além do gaúcho Rafael Grampá e de Rafael Coutinho, são representantes dessa virada. Os quatro estiveram na Festa Literária de Paraty deste ano, provando que, mais do que dialogar como literatura, as HQ'S representam um fazer artístico próprio e que deve ser respeitado como qualquer outro; guarda empenho de seus criadores, que querem dar conteúdo e originalidade a um gênero que tem muito disso (muito mesmo, espantosamente) e que não deve mais ser visto apenas como "tara nerd".

Fábio Moon e Gabriel Bá já são figuras carimbadas no circuito alternativo e guardam como principais marcas autorais as histórias sobre a vida cotidiana, amores, desamores, amizade e a condição de ser um cidadão comum, principalmente jovem, numa grande cidade. Além disso, desenham para os mais variados autores, principalmente para o mercado editorial norte-americano. Bá, por exemplo, ilustrou recentemente The Umbrella Academy, série escrita por Gerard Way, também vocalista da banda My Chemical Romance. Ao adaptarem o clássico conto de Machado de Assis, O Alienista, os irmãos ganharam o prêmio Jabuti, fato que lhes deu notoriedade e provavelmente tenha sido o "passaporte" dos rapazes para a Festa de Paraty deste ano. Juntamente com Rafael Grampá, mais os estrangeiros Vasilis Lolos e Becky Cloonan, receberam o Eisner Awards, o "Oscar" dos quadrinhos, por 5. Grampá, por sua vez, figura num estilo bem diferente dos irmãos, lançou recentemente a sensacional Mesmo Delivery, que ganhou em 2009 o principal prêmio de qudrinhos do Brasil, o HQ Mix, e promete encabeçar, definitivamente, o time principal dos criadores internacionais com a ainda em produção Furry Water and the Sons of the Insurrection, escrita pelo também brasileiro Daniel Pelizzari. Aliás, há um dado interessante aqui: tanto Pelizzari com Furry Water, quanto Daniel Galera com a também inédita Cachalote (produzida em parceria com Rafael Coutinho) são autores que fixaram seus nomes como escritores e agora migram para esse outro espaço literário - demonstração cabal de que o envolvimento com a arte não tem barreiras para aqueles que, simplesmente, querem contar boas histórias.

Estivemos lá na FLIP na mesa de discussão em que as HQ'S foram o centro das atenções e presenciamos uma sensacional spoken comic, uma pequena demonstração de algumas obras por seus próprios autores. Se fossem apenas livros, seriam lidos trechos, aqui, no entanto, foi preciso ver para conhecer.



TRECHO DE MESMO DELIVERY, DE RAFAEL GRAMPÁ, POR GRAMPÁ E RAFAEL COUTINHO

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TRECHO DA AINDA INÉDITA CACHALOTE, DE RAFAEL COUTINHO E DANIEL GALERA

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O elemento central nesta discussão sobre quadrinhos ser ou não literatura está no que consiste, de fato, o conceito de qualidade. Como já foi dito aqui, ser ou não ser literatura ou arte "de verdade" não é o foco da questão. O maior tabu que se coloca é que, em sua origem, e até hoje, os quadrinhos são um gênero de massa, consumido em demasia, uma indústria que gera muito dinheiro, mas que, na verdade, tem seus nichos. Assim como há a HQ mais comercial, há também aquela mais experimental ou intimista que rejeita a ideia de vender por vender; há autores que transitam nesses dois meios sabendo dosar essa distinção na identidade de uma obra mais autoral e outra que garante seu sustento - como é o caso dos gêmeos Moon e Bá; como em qualquer tipo de arte, há, aqui, aquela voltada ao grande público e a dos núcleos mais fiéis; há as histórias de boa qualidade e também as ruins, uma definição ambígua, sim, mas que nunca, em nenhum tipo de manifestação, pode ser definida pelo fato de ser popular ou mais restrita.

Seja qual for a temática, este é um gênero que mistura o sabor das letras com as artes gráficas sempre de uma forma única e, muitas vezes, despojada (no bom sentido), e que por isso talvez apaixone tanto. O que prova, mais do que nunca, como sensibilidade e reflexão, na arte, podem ser saberes intrínsecos à diversão. E, de uma vez por todas, chega dessa história: a literatura em quadrinhos também amadurece junto com seu público, uma vez que, definitivamente, não é coisa (só) de criança. Em alguns casos, é justamente o contrário: é necessária muita bagagem cultural para compreendê-la e uma percepção aguda de seus aspectos mais subjetivos.



*Durante o período em que estivemos na FLIP 2009, as HQ'S foram a nossa atração principal. Para nossa surpresa, foi por causa da presença delas que aparecemos no "Jornal Hoje" e no "Folha Online":
-CLIQUE AQUI PARA VER A REPORTAGEM (RUIM, EM TOM BASTANTE INFANTIL) DO "JORNAL HOJE" EM QUE A CAROL FALA E O VINICIUS APARECE DE CAMISETA DO GRÊMIO!
-CLIQUE AQUI PARA VER A (BOA) MATÉRIA DO "FOLHA ONLINE"! (NESSA SÓ APARECEMOS DE RELANCE)

*Recentemente, os quadrinhos fizeram parte de um acalorado debate pedagógico, uma vez que a adoção de algumas obras de Will Eisner em escolas foi questionada em âmbito federal e regional. Há argumentos dos mais variados, mas posicionamo-nos TOTALMENTE A FAVOR DA PERMANÊNCIA DESSAS HQ'S. Mais do que nunca, dialogar com o gênero em si na escola, sem preconceitos, seria já uma grande vitória. Além disso, a discussão sobre os temas presentes nas obras parece ser de um moralismo atroz por parte das autoridades. É claro que é necessário observar as faixas etárias dos leitores, mas negligenciar o conhecimento desses livros A TODOS é um absurdo.
- LINK PARA MATÉRIA DE ZERO HORA NO CLIC RBS!
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Em defesa de Eisner: links para ARTIGO DO CINEASTA JORGE FURTADO e TEXTO DE DIANA CORSO

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Chico é pop.





Cantor, compositor, dramaturgo, escritor, um pensador até... Certa vez uma amiga minha disse: "Chico Buarque é uma espécie de Aristóteles brasileiro". Brincadeiras hiperbólicas à parte, Buarque saltou do hall de grande gênio pós-Bossa Nova para se tornar esta que, hoje, seja talvez a maior referência intelectual do nosso país. E não é porque é cosmopolita na sua participação no meio artístico - até porque, musicalmente, Chico é um revisor da tradição, o extremo oposto de um Caetano Veloso, por exemplo, que se reinventa constantemente, sempre na busca pelo novo. Mas Chico é algo interessante de se analisar... Além de todas as suas atribuições e contribuições para a história cultural do Brasil recente ele é... Bonito (?!). Sim, é um galã para muitas, "o Felipe Dylon das quarentonas", como ironizou certa feita Juremir Machado da Silva.

Fato é que a passagem de Chico Buarque pela Festa Literária Internacional de Paraty justifica sua colocação no Olimpo das letras nacionais. Nessa cidade da literatura, ele é o rei! Sua presença é um evento! Numa era tão sem referências como a nossa, o exemplo de Buarque faz pensar como os mitos são criados em nossa sociedade: sua genialidade ultrapassa os limites da razão, pois consegue, mesmo numa tão recente e curta incursão pelo romance, criar obras magníficas, de notável apuro estético e narrativo, em que uma consegue reverter expectativas da anterior, promovendo algo sempre original (até mesmo se comparadas com seu papel na canção). E estamos falando do homem que compôs obras-primas irretocáveis como "Construção", "Folhetim", "Eu te amo" e tantas outras; que participou da renovação do teatro brasileiro com Gota D'água e Calabar e que, simplesmente, tornou-se uma referência de embate com a repressão durante a ditadura militar na luta pela liberdade de expressão. Com esse currículo, já temos a receita para se fazer um herói dentro da cultura. Mas o homem não cansa e dedica-se também à literatura, justamente em um gênero hoje pouco produzido, pelo esmero necessário à sua criação, e pouco lido, pelas inúmeras atrações que rivalizam com ele nesse espetáculo da modernidade: o romance. Nesse sentido, Chico reinventa sua carreira à sua maneira. E lá vão mais genialidades: Estorvo, Benjamin... E o cara ainda é best-seller (!).

O sucesso comercial de Chico Buarque, principalmente em seu último livro, Leite Derramado, obviamente se deve a um excelente movimento de promoção editorial, mas não há dúvida de seu talento. Só isso justifica a mobilização que ele produz num evento desse tipo: os ingressos para a mesa de discussão em que ele participaria esgotaram-se em poucas horas, um mês antes da FLIP iniciar. A mera ideia da presença do compositor causa histeria em fãs que, dadas as suas feições de mães e pais de família, parecem patéticos, mas a idolatria é como a fé, e esses são elementos absurdamente irracionais. Posso estar errado, mas acredito que Chico nunca foi tão unânime quanto hoje; seu sucesso nunca foi tão presente quanto hoje; talvez ele mesmo só esteja vendo seu sucesso comercial, realmente, hoje, justamente porque necessitamos de referências como ele, tão precisamente geniais, tão idôneas.

*

Na noite do dia 3 de Julho, temos um circo armado. Uma sala: lotada; um espaço para ver a tal mesa de debate no telão: lotado; o mediador da mesa avisa que os autores autografarão seus livros em seguida, em quatidade limitada: histeria, corre-corre... Uma fila de autógrafos cheia, lotada, antes mesmo de iniciarem-se os trabalhos. Analiso o contexto e penso: "Milton Hatoum... Ele é o outro cara da mesa do Chico... Apenas isso: aqui ele é o outro cara. Será que ele se dá conta disso? Putz, ele escreveu Dois Irmãos, uma obra-prima... Será que alguém está aqui para ouvir ele? Será que alguém vai autografar algum livro seu também...?".

Trata-se de um testemunho: testemunhamos a afirmação de um ídolo. Tão grande quanto Michael Jackson, tão distinto e reverenciado quanto Madonna, tão permanente quanto Beatles, U2 e Rolling Stones. Lá, em Paraty, na terra dos livros, Chico Buarque é pop - é o rei do pop! (Aposto que se ele andasse caminhando pelo calçadão de Copacabana nem seria notado.)

Ah! Quanto aos autógrafos, não fiquei para ver, mas parece que Buarque só autografou 150 livros, a histeria causada em torno de sua presença atrasou o show de Francis Hime & Olivia Hime, o que me deixou um pouco irritado. Espero que Milton Hatoum tenha autografado algum livro, mesmo que tenha sido uma dedicatória em algum exemplar de Leite Derramado - toda essa catarse social tornou o cara um pouco mais simpático para mim.

terça-feira, 21 de julho de 2009

"É uma festa, não um evento acadêmico."

A frase acima define muito bem a diferença que se coloca entre a FLIP e demais eventos que buscam essa necessidade de colocar em pauta a literatura. Trata-se, literalmente, de uma festa, como o próprio nome que ela leva já diz (Festa Literária Internacional de Paraty). Mas até que ponto uma festa pode contribuir para uma discussão literária? Essa é a grande questão, pois, afinal, não existe forma melhor ou pior de discutir a literatura e, o aspecto mais importante, discutir o corpus literário, não é, afinal, mais ou menos importante do que, efetivamente, ler.

As palavras do conferencista de abertura do evento Davi Arriguci Jr. ilustraram muito bem do que se trata a FLIP e, logo no primeiro dia, tornou-se muito nítido o que tínhamos ali: na principal praça da cidade, uma biblioteca infantil gabaritada, livros pendurados nas árvores, autores famosos circulando pelas ruas, cordelistas recitando seus versos, uma infinidade de palestras gratuitas acontecendo ininterruptamente, projetos dos mais variados divulgando seus trabalhos em vários estandes... Enfim, o que diz Arriguci: "um evento que valoriza a necessidade da leitura". Parece uma frase simples, mas perceba a sutileza: o crítico e professor, em suas palavras (e como dito posteriormente), coloca que se trata de uma necessidade que se sobrepõe, inclusive, ao ato de escrever, é algo muito maior do que essa ligação intríseca entre escrita/leitura; ler é um ato solitário, sim, pois nos vinculamos intimamente com um livro, mas, da mesma forma, ler é um ato isolado, que fala por si só e que deve ser valorizado no e pelo momento da leitura. Discutir um livro, um autor e sua obra é algo fundamental, mas tornar o ato de ler algo tão natural quanto assistir TV ou ouvir música (também um lazer, portanto) é uma missão da FLIP e que deve não estar tão engessado em objetivos, expectativas ou cotejos com a teroria e a crítica.

*

Para aquele que chega em Paraty, fica nítido que tal evento está no lugar certo: uma cidade que respira o século XVIII em suas construções, em que seu centro histórico compreende quase que todo o seu território, os livros descansam e a leitura está permanentemente viva entre as pessoas como um ideal perdido no tempo. Claro, há elementos de profunda relação mercadológica, uma vez que temos as falas dos autores "popstars" que, digamos, "puxam" o público para a cidade e promovem o turismo realmente - o turista que paga caro, que consome não só cultura -, mas, ao contrário das minhas próprias expectativas, não é um evento tão elitizado como esperava (o que por muitas vezes plantou uma séria dúvida sobre a validade de investir no mesmo); o espaço infanto-juvenil é extremamente valorizado, uma alegria só ver as escolas, as crianças e os adolescentes envolvidos em atividades simples, mas que fazem toda a diferença e, principalmente, um evento democrático por equilibrar a necessidade de custeá-lo (refiro-me às palestras pagas em que, não sendo estudante, fica realmente caro ir à FLIP), associado também a uma programação aberta a todos (e aqui tenho a convicção de afirmar que se trata do "grosso" do evento).

Para quem é de Porto Alegre, há uma relação muito próxima com a forma como a Feira do Livro estruturou-se nos últimos anos, abrindo espaço para palestras e oficinas, por exemplo - exceto pelo fato de que a venda de livros não é o foco em Paraty. Essa proximidade dá-se, fundamentalmente, por essa relação que há com a euforia pelo livro, uma euforia perdida com o advento de tecnologias e chamarizes que diminuíram o público leitor nessa nova sociedade pós-moderna. Neste sentido, é nítido o esforço da Festa Literária de Paraty em agradar as crianças (e agora com foco também nos adolescentes), pois nelas reside a esperança de termos leitores que manterão aceso o gosto pela literatura em todas as suas formas (na oralidade também!) e, sejamos honestos, é isso realmente o que importa, afinal de contas é uma festa, e ninguém sabe fazer festa melhor que eles.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Festa Literária Internacional de Paraty

Então, pessoas...

De volta à capital gaúcha, após a FLIP 2009 em Paraty! Por ora só podemos dizer que há muito a ser contado. A ideia é, gradualmente, atualizar o Devaneio Literário com alguns dos principais momentos que presenciamos neste evento incrível.

Em meio a histórias em quadrinhos, furor por Chico Buarque, palestra com o Marcelo Tás (do CQC) e até aparição na TV, muitas coisas legais serão aqui relatadas.

Aguardem!




quarta-feira, 17 de junho de 2009

Depoimento sobre leitura - Felipe Guerreiro Dias da Silva

Mais uma vez abrimos espaço no Devaneio Literário para os nossos pupilos. O depoimento abaixo foi escrito por Felipe Guerreiro Dias da Silva, estudante do terceiro ano do Ensino Médio da Escola Martinho Lutero, de Cachoeirinha, e é uma breve amostra de que, mesmo com o tédio que nos circunda com relação a algumas obrigações escolares, a leitura é um prazer que não pode ser deixado de lado - é só achar algo que promova identificação. Publicado no jornal da cidade, o pequeno texto é mais um motivo de orgulho e satisfação nossa.

*

Sempre fui muito agitado e bagunceiro, não queria parar nem para dormir, e a solução encontrada pelos meus pais foi me presentear com um livro. Mal sabiam eles o que acabavam de criar. Nos tempos em que o colégio era menos cansativo, acabei por desenvolver o hábito de devorar um livro inteiro em uma noite, isso quando não começava a ler o segundo.

Meus primeiros favoritos foram "Harry Potter" e "Artemis Fowl". Hoje em dia, minha coleção mais amada é "Discworld", de Terry Pratchett, uma comédia medieval fantástica, e também os contos de H. P. Lovecraft, mestre do gênero terror e suspense.

Aconselho para o pessoal mais jovem, que não gosta de ler, que comece com algo como "Sandman", de Neil Gaiman - que conta a história de Sonho, governante de Sonhar, e de como ele interage com os homens, o Universo e suas criaturas - ou com alguns mangás (histórias em quadrinhos japonesas)

Felipe Guerreiro Dias da Silva

, p. 08.


* Complementando o comentário de Felipe, uma boa amostra da obra do quadrinista e romancista Neil Gaiman está na série em quadrinhos "Morte: o grande momento da vida", que é recuperada em "Sandman". Recentemente, algumas de suas histórias foram adaptadas para o cinema (Stardust, com Michele Pfeifer e Robert DeNiro - sem muito êxito - e Coraline e o Mundo Secreto, animação de Henry Selick - esta sim, uma obra infanto-juvenil que respeita as principais marcas do genial autor original).

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Que livro é você?

Dica do blog da nossa amiga Carolina Duarte, o LUSCA-FUSCA: no site do projeto "Educar para crescer", do grupo Abril, há um teste daqueles bem divertidos, que podemos fazer justamente naquelas horas em que não há mais absolutamente nada que mereça a nossa atenção. Responda 10 questões simples sobre sobre sociedade, a sua personalidade e relações humanas e descubra que obra você seria se fosse um livro! Eu fiz - veja no que deu (um clássico!):

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Ok, você não é exatamente uma pessoa fácil e otimista, mas muita gente te adora. É possível, aliás, que você marque a história de sua família, de seu bairro... Quem sabe até de sua cidade? Afinal, você consegue ser inteligente e perspicaz, mas nem por isso virar as costas para a popularidade - um talento raro. Claro que esse cinismo ácido que você teima em destilar afasta alguns, e os mais jovens nem sempre conseguem entendê-lo. Mas nada que seu carisma natural e dinamismo não compensem.

- Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) é considerado o divisor de águas entre os movimentos Romântico e Realista. Uma das expressões da genialidade de Machado de Assis (e de sua refinada ironia), há décadas tem sido leitura obrigatória na maior parte das escolas e costuma agradar aos alunos adolescentes. Já inspirou filme e peças de teatro. É, portanto, um caso de clássico capaz de conquistar leitores variados. Proezas de Machado.


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É, como dá pra ver ainda sobra espaço até para dicas no maior estilo "horóscopo". Aliás, seria bem interessante realmente se, ao invés de sermos guiados pelos astros e por signos do zodíaco, tivéssesmos nosso destino traçado de acordo com referências literárias. Coitado de quem fosse um "Dom Casmurro"...


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terça-feira, 12 de maio de 2009

"Trote nas universidades, como usá-lo?", de Bruna Madsen Carvalho

Durante o mês de Abril estudantes de diversas cidades do Rio Grande do Sul mobilizaram-se em torno do Concurso RedAÇÃO ZH, um concurso cultural promovido em parceria entre o jornal Zero Hora e o curso pré-vestibular Unificado. Como o próprio nome coloca, trata-se de uma oportunidade de exercitar a prática da escrita de texto dissertativo voltada ao vestibular. Neste ano o tema foi "O Trote nas Universidades" e 300 estudantes foram selecionados para a segunda etapa que se realizará no próximo Sábado, 16 de Maio, que trará uma proposta de produção textual totalmente nova. Deixamos aqui, então, a discussão literária (ou sobre ensino & literatura tão pontuada ultimamente neste blog) para divulgar a todos um desses textos selecionados: trata-se de uma estudante da rede privada da grande Porto Alegre, Bruna Madsen Carvalho, aluna do segundo ano do Ensino Médio da Escola Martinho Lutero, de Cachoeirinha - que eu, Vinicius Rodrigues, colaborador do Devaneio Literário (e professor da autora), trago aqui como forma de parabenizá-la imensamente por esta conquista. Um texto enxuto e objetivo que traduz uma necessidade de compreender algo que poderia ser tão distante de uma estudante como ela, mas que é passível de reflexão e tentativa de entendimento. Desejemos sorte à jovem nesta segunda etapa que virá!

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Há alguns meses atrás (mais especificamente em Fevereiro de 2009), aconteceram vários trotes maldosos na Universidade Federal de São Paulo, onde uma caloura grávida acabou sendo ferida por uma veterana de Pedagogia que usou creolina no trote; houve também outro caso, no qual um calouro foi submetido a beber álcool até desmaiar para que outros se aproveitassem da situação para bater no mesmo.
Eu, particularmente, não sou contra os trotes, sabendo usá-los com sabedoria, criatividade e sem ter intenção de machucar, tudo se torna fácil e mais divertido.
As perguntas são: para que humilhar, pisar, debochar dos calouros? O que leva os veteranos a fazer isso? Às vezes as influências de fora mexem com as nossas cabeças, temos que saber dividir o errado do certo. Machucar nossos colegas, que no futuro poderão ser nossos amigos... Não faz sentido!
Com relação ao trote solidário, sou totalmente a favor. Ao invés de nos submetermos a humilhações lastimáveis, porque não ajudar alguém que realmente precise? Pedir dinheiro no semáforo pode não ser tão humilhante se for para realmente ajudar quem precisa.
O trote solidário poderia ajudar várias instituições de caridade, assim fazendo com que muitos que estão tristes voltem a sorrir. Passar um dia na semana, durante um mês, com alguém que precisa de carinho deixaria todos muito mais satisfeitos. Essas e outras atitudes que realmente valem a pena deixariam os envolvidos muito mais felizes.

Bruna Madsen Carvalho

domingo, 3 de maio de 2009

A pauta do mês!

Já que a discussão em pauta é educação, tanto em nível mais genérico quanto em seu ambiente mais específico (diretamente ligada ao ensino vinculado à língua e à literatura), que tal refletir mais um pouco?

Nas últimas duas postagens, discutiu-se muito o papel do educador. Propomos, então, continuar esse debate ainda a partir do cinema e pensarmos um pouco mais sobre o papel do professor e como sua imagem é construída na sétima arte. E já que o devaneio, aqui, é, a priori, literário, vamos então dar uma breve olhada em alguns exemplos que sugerem o primordial lugar da linguagem e do texto no ensino em abordagens que, infelizmente, não refletem a crueza e o realismo de Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, mas que, por outro lado, mostram-se também, ao seu modo, pertinentes para uma possível reflexão, tanto para educadores quanto para alunos, ainda que lidem com personagens pasteurizados em visões, muitas vezes, demasiadamente edificantes.

Vão aí alguns exemplos e fica o tema de casa: assistam!

- Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir

Um clássico moderno. Quem não se lembra do “captain, my captain” dos versos do poeta norte-americano Walt Whitman, tantas vezes referido nesta obra, é porque nunca entrou em contato com o Prof. Keating, brilhantemente interpretado por Robin Willians no seu, talvez, melhor e mais sereno momento no cinema. Todo professor de Literatura gostaria de ser John Keating. Trata-se de uma obra que se pauta pelo papel da transgressão sadia, da busca pelo autoconhecimento, da necessidade da mudança de perspectiva que deve motivar qualquer jovem, um recado também àqueles que desejam promover uma educação que realmente “toque” seus alunos. Mais do que um filme que somente trata do ofício do professor, Sociedade dos Poetas Mortos contempla, também, a busca por fazer a diferença e acreditar nas suas próprias convicções – o que pode ser facilmente piegas, mas que, na verdade, ganha muita força na direção segura e sem exageros do grande Peter Weir (diretor de obras fantásticas, como O show de Truman, o show da vida, Gallipoli e A Testemunha).


- Escritores da Liberdade, de Richard LaGravenese

Baseado numa história real, Escritores da Liberdade lida com o velho clichê “professor-inexperiente-cheio-de-boas-intenções chega a uma escola de periferia para trazer a paixão pelo saber e entra em choque com uma realidade que não conhece”. A partir dessa premissa, desenrola-se uma trama que compreende outros velhos dramas dos filmes “de escola”, como a descoberta, as dificuldades de desvinculação do mestre para com seus discípulos e os reflexos dessa experiência na vida pessoal de ambos os envolvidos. O que há de realmente interessante nessa obra, além da ótima performance de Hilary Swank como a professora novata, está nas abordagens desenvolvidas pela educadora para tentar acessar a realidade de seus alunos que, por mais que estejam ligados a universos que transpiram a marginalidade e a miséria, podem muito bem refletir-se no (des)interesse de quaisquer alunos, de quaisquer esferas sociais, bem como na (des)consideração dos educandos para com aqueles mestres que só desejam fazer o melhor trabalho possível. Ambos os aspectos são tratados de maneira bastante tocante no filme e são discutidos a partir de uma palavra que deve nutrir as práticas educacionais, elemento esse tantas vezes negado pelos membros das comunidades escolares: o diálogo.
Mais alguma dica? Lembrou de algum filme deste quase subgênero (o “filme de escola”) que lide com professores da área de língua & literatura? Fora esses, lembra de algum que tenha marcado você? Enquanto isso, ficam as sugestões do Devaneio Literário!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Entre os Muros da Reflexão

Um minuto após os créditos iniciarem e as luzes do cinema surgirem, ouço “Que falação. Que filme mais chato!”. A frase foi enunciada por uma mulher, não sei de que idade, acerca do filme Entre os Muros da Escola. Antes de explicar o porquê da minha decepção, apresento a narrativa cinematográfica: produção francesa, inspirada em um livro de relatos, no qual François Bégaudeau, professor de francês, narra algumas de suas experiências profissionais.
Desde a estréia do filme, a crítica e os blogueiros têm indicado como principais êxitos da produção o seu hibridismo ficção-documentário e seu recorte social, colocando em foco a diversidade linguística e étnica da França. Essas são percepções essenciais e, de fato, traduzem muito da qualidade do filme.
Entretanto, ainda não tive oportunidade de ler alguma reflexão acerca do universo educacional construído na tela. A realidade apresentada é francesa, mas pode ser transposta, perece-me, a diversas salas de aula e escolas. Ao assistirmos ao filme, um verdadeiro diário escolar é construído, evidenciando a relação professor-aluno.
E se a recepção é importante, defino a minha: um verdadeiro “soco no estômago”. Há inúmeros filmes que colocam a docência como protagonista, desfilando, assim, personagens-professores que subvertem a ordem caótica de seus empregos, conquistando alunos e modificando realidades, imersos em determinação e criatividade. Na produção Entre os Muros da Escola, por sua vez, temos a oportunidade de conhecer um professor mais verossímil.
O educador de língua, no caso a francesa, não é um herói e não se contrói um herói para nenhum dos seus alunos. A relação retratada é cotidiana, sem exaltações. O professor apresentado parece dividir-se entre uma educação formal (voltada à nomenclaturas) e um educar que prioriza a valorização dos saberes dos alunos. Essa personagem-professor é verossímil porque erra.
Em meio ao turbilhão da sala de aula, onde vozes entrecruzam-se (e não esqueçamos que, no filme, não há trilha sonora), papéis permanecem em branco e alunos parecem simplesmente não conseguir alcançar a concentração, o professor, em um momento de descontrole, diz palavras ofensivas a duas alunas. A confusão instala-se. O desenlace, mais uma vez, não é heróico: temos um professor que não consegue pedir desculpas.
O filme é interessante porque oberva o universo escolar e suas limitações. Sabe-se que a educação possui inumeráveis problemas e tornou-se lugar-comum mencionar essa situação como um dos entraves ao desenvolvimento do País. No entanto, basta um filme reflexivo como Entre os Muros da Escola desfilar nas telas para comprovarmos que, na verdade, as pessoas não se preocupam com a educação. Não querem essa “falação”; querem, apenas, soluções. Como chegar a elas sem reflexão?
O assunto está em pauta e não interessa apenas aos profissionais da educação. Teoricamente, todos passamos pela escola. Se um filme como esse não conseguir suscitar reflexões, concluirei que muitas pessoas desejam, apenas, notícias sobre a educação – quantos professores e professoras sofreram agressões e em quais lugares. O x da educação é mais complicado do que se imagina e, infelizmente, há quem prefira deixar os problemas da escola entre seus muros.

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Fica a dica: assistam ao filme!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Dilemas em ensino de Literatura

Ensinar literatura é ensinar a ler (ampliando a noção de leitura)? Ensinar literatura é destacar o papel de um autor no contexto no qual ele está inserido e, portanto, sua relevância para a Cultura? O papel do ensino de literatura atravessa estas duas questões quando reconhecemos que é fundamental que saibamos provocar a sensibilidade artística de um educando; quando também revelamos a este aluno a forma literária como uma manifestação de arte que equilibra a abstração com a objetividade, o entretenimento com a reflexão; e vemos o quanto também é necessário trabalhar autores que revelem sua importância na formação identitária de um povo, uma vez que são também representantes da tradição. Mas sensibilidade não é só exercitar a capacidade crítica ou a apreciação do objeto artístico. Bem como não só de autores e leituras canônicas a prática do ensino de literatura deve estar ligada.
O Brasil está repleto de diversos exemplos que justificam que as nossas letras podem se aproximar muito de universos mais objetivos e concretos para aquele que lê, tanto na narrativa quanto na lírica. Temos aí Rubem Fonseca e Vinicius de Moraes, por exemplo. Ensina-se literatura para valorizar a importância que tem o ato da leitura e da escrita criativa, inventiva, que modifica aquele que lê, que transforma, apreende o seu entorno e devolve-o filtrado pela beleza do verso, das belas palavras, das palavras certas nos lugares certos. Ensina-se literatura para que tantos representantes de nossa cultura mantenham-se vivos na memória pela sua importância histórica, pelo valor que cumpriram ou cumprem como formadores de opinião, fomentadores da reflexão, enfim, sua importância na sociedade. Trabalha-se arduamente sobre a obra literária para que se observe o quanto é possível nos conhecermos melhor, pois é quando vemos toda a gama de sensações impressa por um autor para falar de si e de suas sensações, que vemos o quanto somos complexos e nada indiferentes, ainda que tentemos. Para tanto, é necessária uma aproximação do leitor com a obra literária – a tarefa mais difícil do professor de Literatura do Ensino Médio. E, muitas vezes, dentro de uma sala de aula, nossas convicções (decorrentes de preparação prévia, coleta de material, etc.) são confrontadas com uma realidade que não dá mais tanto valor aos livros e à arte.
Propomos esta reflexão frente, também, a uma crônica de Martha Medeiros que muito sintetiza aquilo que deveríamos pensar sobre o que é refletir sobre a leitura e a obra artística literária, principalmente na sala de aula. E convidamos todos a participarem dessa discussão!

“Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: não façam ‘literatice’. O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra.”
Nelson Rodrigues

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"Aula de Literatura", Martha Medeiros

Todo escritor que tenha sido entrevistado meia dúzia de vezes já passou pela indefectível pergunta: os professores devem obrigar seus alunos a lerem determinados livros? Já pensei mil vezes nesta questão. Quando estudante, eu era rata de biblioteca, mas confesso que me aborrecia quando o tema de casa era ler um livro que não estava nos meus planos. Tinha de tudo nesta recusa: um pouco de rebeldia, um pouco de preguiça e muito de ignorância. Afinal, se lemos livros de álgebra, biologia e história natural sem achar que o professor está sendo autoritário, por que um Guimarães Rosa ou um Machado de Assis provocam tanta polêmica?

Porque o livro de ficção está associado à arte, e arte é escolha. Não recebemos aulas sobre Fellini ou Hitchock na escola. Não aprendemos nada sobre Beethoven ou Beatles no colégio. A obra de Matisse e Renoir não cai nas provas. Por que só a literatura está no currículo?

Talvez porque a literatura continue sendo fundamental para a formação do indivíduo. Música, cinema, dança, pintura e outros tipos de manifestações artísticas acabam sendo, injustamente, designadas de “conhecimento geral”. Já a literatura está além do prazer. Ela nos ensina, antes de mais nada, a escrever, e isso já bastaria para colocar qualquer livro como complemento indispensável da cartilha. Além disso, os livros ensinam a sonhar, a olhar para dentro, a reconhecer sentimentos, a assimilar culturas. Ensinam geografia, história, português. Ajudam a formar o caráter e preparam para a vida.

Não é na escola que se aprende a ter amor pelos livros. É em casa, convivendo com eles desde criança, seguindo o exemplo de nossos pais. Mas a escola pode e deve incentivar o hábito, não porque cai no vestibular, mas porque a literatura é a base do ensino. É lendo livros de Direito Penal que serão formados os futuros criminalistas, é lendo livros de Odontologia que se aperfeiçoarão os dentistas de amanhã, é pelos livros didáticos que começam a se formar jornalistas, professores, cientistas, arquitetos, pedagogos e demais profissionais deste país.

Muito bem, mas por que José de Alencar e não Maria Mariana? É claro que o adolescente tem o direito de fazer suas próprias escolhas, e há boa literatura para todas as idades. Nada contra os novos autores, tão jovens quanto seus leitores, que falam a mesma língua e tratam das mesmas angústias. Mas isso não significa que Josué Guimarães ou um Érico Veríssimo também não possam encantar os menores de 18 anos. O importante é abrir o leque de opções, apresentar aos estudantes todo tipo de literatura, de preferência a de melhor qualidade, porque só conhecendo diversos autores e estilos é que ele poderá, mais tarde, selecionar os seus preferidos.

Quando eu freqüentava as aulas de matemática, já intuía que os logaritmos e as equações fracionárias não me fariam falta no futuro, mas o professor não podia adivinhar qual o caminho que eu iria seguir, se o das ciências humanas ou exatas, e por isso tinha a obrigação de me ensinar aquilo que poderia vir a ser útil em minha vida, deixando para mim a responsabilidade de abandonar estas lições em algum canto do cérebro, caso não precisasse mais delas. O que os professores de literatura querem, quando exigem que seus alunos leiam os clássicos da literatura brasileira e universal, é estimular a discussão de idéias e ajudá-los a compreender melhor o mundo em que vivem. Que cumpra-se o currículo. Se alguém achar chato, terá a vida pela frente para ler apenas os neurolingüístas, peregrinos, bruxas e outras maravilhas da atualidade.

In.: Top Less. Porto Alegre: LP&M, 2002, p. 86.