sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

"Revolta no Inferno", de Luis Fernando Veríssimo


Todo fim de ano o Diabo recebe um pequeno grupo para jantar no que chama de sua anticobertura, um duplex no último subsolo do Inferno, escolhendo entre as almas condenadas as mais interessantes e de melhor papo. Os pratos são sempre grelhados e o vinho é de produção local, marca Diabo, mas o principal é que todos se divertem, falando mal de Deus e todo mundo. Mas, ultimamente, a questão de quem merece e quem não merece estar no Inferno vem sendo muito discutida nos jantares, e as queixas dos que se acham injustiçados por estarem lá se multiplicam. O Diabo tenta cortar os lamurientos da sua lista de convidados, mas não pode prescindir da presença de Oscar Wilde, um dos seus comensais favoritos, apesar das suas constantes críticas à comida, à companhia e à ausência de ar condicionado, e que foi quem primeiro expressou sua revolta. E o Diabo já sabe que em breve estará enfrentando uma verdadeira rebelião de almas pedindo revisão de sentença e perdão retroativo. E que seus jantares nunca mais serão os mesmos.

Tudo começou quando Wilde, fazendo uma cara feia depois de provar o vinho, comentou como estavam se tornando comuns, na Terra, o casamento entre homossexuais.
— Eu fui preso, execrado e excomungado por ser homossexual — disse Wilde. — Se fosse hoje, em vez de condenado e exilado, eu poderia ser, sei lá, um conselheiro matrimonial. Não faz muito, a mesma igreja anglicana que me mandou para cá ordenou um bispo gay. O que é que eu estou fazendo aqui?
O Diabo tentou mudar de assunto, mas Wilde continuou:
— Me transfira para o céu, D., nada pessoal contra você, mas aposto que o vinho lá é melhor. Sem falar no clima.

Não adiantou o Diabo argumentar que nem ele nem Deus são senhores dos tempos que mudam, ou da justiça divina, que não tem corregedoria ou apelação. Wilde só prometeu epigramas cada vez mais pesados, mas o Diabo se prepara para a gritaria dos indignados do Inferno.

Como os que foram mandados para o Inferno por usura, no tempo em que era pecado. E — como gosta de lembrar o Diabo, com um sorriso malicioso — a Igreja ainda não inventara o Purgatório justamente para acomodar os usurários, pois sem eles não haveria empréstimo a juros, bancos e sistemas financeiros.

Hoje a usura não só é o que faz o capitalismo rodar como é o capitalismo financeiro que manda no mundo. E, principalmente, não é mais pecado, pois os juros não são mais uma abominação aos olhos do Senhor, e até a Igreja tem bancos. E os condenados por usura no Inferno perguntam se não têm direito à mesma respeitabilidade conquistada pelos banqueiros, que hoje enriquecem em vida sem o risco de as suas almas penarem na morte, e à absolvição. Ou pelo menos a um up grade para o Purgatório.

Extraído de Zero Hora, 24 e 25 de Dezembro de 2007, página 03.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A Realidade Ficcionalizada ou a Ficcionalização do Real











A seca e seus retirantes constituem uma temática fortemenete desenvolvida pelo momento literário denominado Romance de 30. Alguns autores que produziram nessa época utilizaram a temática social como ponto de partida para suas criações literárias. Entre eles, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos deram ênfase ao sofrimento do retirante e ilustraram suas narrativas com seu universo árido, imerso em dor. Graciliano, em "Vidas Secas", deu ao retirante caráter humano, por meio de um narrador em terceira pessoa que mobiliza seu foco narrativo, colocando-o ao lado de cada personagem da família de Fabiano. Se até então o sertanejo surgia, com maior fôlego, como um tipo, a personagem Fabiano demonstra-nos que, apesar de sua “linguagem cantada, monossilábica e gutural”, o sertanejo observava o mundo e, mais que isso, experenciava-o.

Nesta postagem, sugiro a fruição de um conjunto de produções artísticas que observam a seca suas personagens. Podemos começar com um trecho de Graciliano, no qual fica evidenciado o foco narrativo e a percepção de mundo da personagem Fabiano que se sente emparedado, asfixiado, em meio a uma multidão que não o percebe:


“A multidão apertava-o mais que a roupa, embaraçava-o. De perneiras, gibão e guarda-peito, andava metido numa caixa, como tatu, mas saltava no lombo de um bicho e voava na catinga. Agora não podia virar-se: mãos e braços roçavam-lhe o corpo. Lembrou-se da surra que levara e da noite passada na cadeia. A sensação que experimentava não diferia muito da que tinha ao ser preso. Era como se as mãos e os braços da multidão fossem agarrá-lo, subjugá-lo, espremê-lo num canto de parede. Olhou as caras em redor. Evidentemente as criaturas que se juntavam ali não o viam, mas Fabiano sentia-se rodeado de inimigos, temia envolver-se em questões e acabar mal a noite”, pág. 75.

Eu não poderia deixar de citar o magistral vídeo clipe “Segue o Seco”, de Marisa Monte, dirigido por Cláudio Torres e José Henrique Fonseca, com genial fotografia de Breno Silveira, no qual temos a presença de três palavras centrais para o universo sertanejo: chuva, gado e seca. As imagens são belíssimas e trazem a sugestão do aspecto físico de diferentes “Fabianos”.

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Para percebermos a intensidade do diálogo elaborado a partir da temática, sugiro a leitura de Leandro Gomes de Barros, cordelista que escreveu “A Seca do Ceará”:

“Seca as terras as folhas caem,
Morre o gado sai o povo,
O vento varre a campina,
Rebenta a seca de novo;
Cinco, seis mil emigrantes
Flagelados retirantes
Vagam mendigando o pão,
Acabam-se os animais
Ficando limpo os currais
Onde houve a criação.
(...)
Vê-se uma mãe cadavérica
Que já não pode falar,
Estreitando o filho ao peito
Sem o poder consolar
Lança-lhe um olhar materno
Soluça implora ao Eterno
Invoca da Virgem o nome
Ela débil triste e louca
Apenas beija-lhe a boca

E ambos morrem de fome”.



“Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente pra lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinha Vitória e os dois meninos”,
"Vidas Secas", pág. 128.

sábado, 22 de novembro de 2008

O pensamento de Nelson Rodrigues


O GÊNIO:
“Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

“Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.”

“Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar.”

“A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão.”

“Amar é ser fiel a quem nos trai.”

“Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora.”

“O ser humano é o único que se falsifica.”

“Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar de batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um são Francisco de Assis, com a luva de borracha e um passarinho em cada ombro.”

O "ANJO PORNOGRÁFICO":
“O homem começou a ser homem depois dos instintos e contra os instintos.”

“Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.”

“Morder é tara? Tara é não morder.”

“Todo tímido é candidato a um crime sexual.”

“Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.”

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.”

O MACHISTA:
“A mulher só se salva se for para o tanque. É o tanque a salvação da mulher”

“Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais. Só as neuróticas reagem, mas o homem não gosta de bater.”

“Toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma.”

“Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil.”


O REACIONÁRIO:
“Todo desejo é vil.”

“O homem começa a morrer na sua primeira experiência sexual.”

“O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.”

“Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.”

“Sexo é para operário.”

“Sou um reacionário libertário.”

O CRÍTICO:
“O brasileiro chamado de doutor treme em cima dos sapatos. Seja ele rei ou arquiteto, pau-de-arara, comerciário ou ministro, fica de lábio trêmulo e olho rútilo.”

“Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.”

“O brasileiro é um feriado.”

“No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte.”

“Os crentes e o padre é que estragam a missa.”

“O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.”

“Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: a nossa.”

O TORCEDOR:
“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.”

“Um Garrincha transcende todos os padrões de julgamento. Estou certo de que o próprio Juízo Final há de sentir-se incompetente para opinar sobre o nosso Mané.”

“Um time que tem Pelé é tricampeão nato e hereditário.”


“O futebol é passional porque é jogado pelo pobre ser humano.”

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

"A Cidade na Praça", de Ana Carolina Lersch Eidam

Final de Feira do Livro! Longe dos debates repetitivos que sempre marcam essa enorme festa da literatura em Porto Alegre acerca das suas opções culturais/comerciais, a crônica da jovem Ana Carolina, 17 anos, tenta resgatar o valor simbólico que este evento tem para a cidade: a integração que a Feira estabelece com a paisagem urbana; um outro olhar sobre o centro "sujo" da cidade, uma nova forma de contemplação que só a Feira do Livro traz à capital gaúcha é o que propõe Ana, estudante do terceiro ano do Ensino Médio da Escola Martinho Lutero, de Cachoeirinha, RS, que eu, colaborador do Devaneio Literário, Vinicius Rodrigues, orgulhosamente, apresento como minha aluna. Aprecie!

*


Era lá que tudo acontecia. Já faziam 54 anos que era dessa forma. Cerca de duas semanas antes começava a ser preparada: vinham aqueles que planejavam, aqueles que construíam, aqueles que carregavam e montavam palcos, stands, passarelas e corredores. Depois que tudo estava pronto, os espaços antes vazios passavam a ser ocupados por todo tipo de material cultural possível, dando à praça, antes esquecida, um novo sopro de vida.
No princípio, era somente na praça, que sob suas árvores abrigava os seres curiosos que iam e vinham de um lado para o outro, sedentos por cultura e conhecimento. Depois ela foi crescendo e até nos dias de chuva já eram possíveis estes momentos que eram únicos no ano. Até que pequenos seres aumentaram sua curiosidade e passaram a procura-la incansavelmente, de forma que foi necessário atravessar a rua e explorar a orla do rio, nos inúmeros armazéns do cais do porto.
O que ela mais tinha a oferecer eram livros. De todas as cores, tamanhos, idiomas e valores. O paraíso das letras sempre a encantou e fez com que os outros se encantassem por ela. À medida que foi crescendo, percebeu que o mundo dos livros não acontecia somente em páginas impressas e encapadas. Foi assim que passou a ser visitada pelo teatro, a música, o cinema e até as artes plásticas.
Tornou-se um passeio familiar, um ponto de encontros de amigos, um centro de compras, um lugar que suscitava discussões e estimulava mudanças. Transformou-se em uma cidade dentro de uma praça, um espaço de refúgio para aqueles que, cansados da rotina do trabalho, buscavam um lugar para descansar sem esquecer que também eram compostos por cultura.
Passou a ser aguardada ansiosamente por aqueles que procuravam encontrar seus autores favoritos, tornar-se próximos a eles, conversando e pedindo autógrafos. Também por quem esperava aprender algo não convencional nos diversos cursos que oferecia.
Era quase como um circo itinerante, suscitando todo o tipo de emoção, tanto na sua espera quanto na chegada, encantando pessoas de todos os tipos e idades e trazendo um pouco de alegria e uma aura mágica à natureza cinzenta da cidade. Mas, assim como o circo, chegava uma hora em que era necessário ir embora. Tudo voltava à normalidade: a praça era novamente esquecida, os armazéns do cais despovoados e as pessoas retomavam a ordem natural de suas obrigações.
Sua magia ficava, então, presa nos livros que, quando abertos, despertavam aquele sentimento de um ser curioso que sentava embaixo das árvores para aproveitar a Feira do Livro. Esta sim, depois de ir embora, só lamentava profundamente ser tão sozinha em uma cidade com tantas criaturas sedentas por cultura.

Debaixo das árvores frondosas
Presenteada com um sopro suave,
Ela acontecia.
Embalada pelas águas do rio
Aquecida por um sol ardente,
Ela movimentava mentes.
Por sua forte personalidade
Por ser capaz de criar idéias
Ela graciosamente destoava
Da cinzenta cidade
Com muitos carros nas ruas
E bêbados nas praças.
Sua macia intensidade
Sua magnífica diversidade
Lembrava que não se perdera tudo
Lembrava que ainda não se conquistara tudo
Era muito mais que uma feira
Era muito mais que apenas livros
Era tudo
Que logo será nada
E terá que se esperar um ano inteiro
Para que volte a ser tudo outra vez.

Ana Carolina Lersch Eidam

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Poesia e cotidiano: a lírica tirada da página policial

Poesia e cotidiano confundem-se em três textos brilhantes de grandes poetas brasileiros que renovaram a lírica nacional ainda na primeira metade do século XX. Quintana e Drummond trazem tentativas extremamente pertinentes de propor um diálogo entre o sublime e os aspectos mais prosaicos. Em Bandeira, um desafio: mexer com o leitor com uma linguagem extremamente direta para um texto em versos. Nos três, entretanto, um elemento permanente: a morte, elemento-chave das notícias e, principalmente, das páginas policias de qualquer texto jornalístico - o jornal, claro, o texto prosaico por excelência.


"Morte do Leiteiro", de Carlos Drummond de Andrade

A Cyro Novaes

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas,
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morador na Rua Namor,
empregado no entreposto,
com vinte e um anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já tem pressa o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira o pouco de leite
disponível em nosso tempo
avancemos por esse beco
peguemos o corredor,
depositemos o lixo...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve

Meu leiteiro tão sutil,
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para a sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.



"Pequena Crônica Policial", de Mário Quintana

Jazia no chão, sem vida,
E estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grande beleza...
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
As fundas marcas da idade,
Das canseiras, das bebidas...
Triste da mulher perdida
Que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
Foi levada ao necrotério.
E quando abriram, na mesa,
O seu corpo sem mistério,
Que linda e alegre menina
Entrou correndo no céu?!
Lá continuou como era
Antes que o mundo lhe desse
A sua maldita sina:
Sem nada saber da vida,
De vícios ou de perigos,
Sem nada saber de nada...
Com a sua trança comprida,
Os seus sonhos de menina,
Os seus sapatos antigos!



"Poema tirado de uma notícia de jornal", de Manuel Bandeira

João gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Sem narrativa, não há memória; sem memória, não há vida.

"Fahrenheit 451", de Ray Bradbury, de 1953, é até hoje um marco da literatura mundial pela abordagem contundente do poder da leitura e, principalmente, da importância da narrativa em nossas vidas. Juntamente com livros sensacionais como "1984", de George Orwell e "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, tornou-se um clássico da literatura de ficção científica dentro de um segmento que conhecemos por distopia, onde a abordagem das estórias faz sempre questão de vislumbrar um futuro pessimista e, por vezes, trágico para a raça humana, dentro dos valores pré-estabelecidos no presente na nossa sociedade.

Para Bradbury, assim como outros autores, o distanciamento com a leitura fatalmente faria com que se percebesse o quão modificador é um livro para aquele que o lê. Seguindo o raciocínio de que a humanidade freqüentemente retorna a posturas arbitrárias, apostando na censura e confiando sua liberdade a governos totalitários vez por outra durante a história, o ficcionalista americano coloca-nos num futuro onde os livros são queimados por bombeiros (que não mais apagam o fogo, mas sim provocam-no), para que a ordem social seja preservada. O que faz de Ray Bradbury e seu romance um diferencial, não é só sua visão de futuro. Pensar que a Cultura é o primeiro grande elemento afetado pelos totalitarismos é algo preconizado e já revisto muitas vezes, em outras obras. O autor vai mesmo a fundo na questão do poder da narrativa: sem literatura, o ato de narrar gradualmente se perde na sociedade e, logo, a memória também vai apagando-se - um prato cheio para, inclusive, modificar-se, naturalmente, a escrita da história da humanidade para fins particulares, pois a escrita para as pessoas comuns também é proibida neste futuro hipotético. E mais: sem memória, sem narrativa até mesmo no cotidiano, simplesmente, a vida fica vazia, os atos sociais tornam-se parcos e simplórios; sem a presença da leitura - de qualquer tipo - os homens e mulheres ficam infelizes e dóceis e não refletem. Tudo muito bem cuidado e trabalhado por Bradbury.

Há uma versão da obra para o cinema, de 1966, que marcou época, dirigida pelo mestre francês François Truffaut, que merece uma boa olhada também. Algumas cenas-chave podem ser vistas aqui:



O QUE SIGNIFICA FAHRENHEIT 451?
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QUIMAR LIVROS POR QUÊ?
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Os devaneios literários selvagens de Thoreau

"Para ser poeta é preciso seduzir os ventos e as correntezas e fazê-los falar."
Henry David Thoreau

Em tempos nos quais se discutem incansavelmente questões vinculadas à ecologia e o papel da natureza na nossa vida, é preciso relembrar de Henry David Thoureau. Filósofo e ensaísta brilhante, Thoreau (1817-1862) buscou no selvagem, nos aspectos primitivos aos quais estamos ligados, a sua motivação para falar sobre o que é viver e ser Homem em uma sociedade em permanente progresso. Para fugir do urbano e das "mentiras" às quais estamos presos, o escritor resolveu refugiar-se em uma cabana às margens do lago Walden e entregou-se à contemplação da natureza em seu estado puro e bruto - elemento recorrente na sua pequena (e, não por isso, menos interessante) obra poética, que pode ser muito bem comparada a alguns dos melhores versos do genial poeta norte-amereinano Walt Whitman. Dessa experiência quase transcendente, em meio à relva e à beleza da solidão no contato com a natureza, surgiu o clássico "Walden, ou A Vida nos Bosques".
De alma renascentista, uma vez que era dotado dos mais diversos interesses, Thoreau - que nasceu e viveu nos Estados Unidos - escreveu tratados sociológicos e filosóficos; tinha inflexão naturalista e mexeu com a historiografia e a literatura, além de ter sido poeta. Na postura frente à sociedade e no seu comportamento como escritor contemplativo, o filósofo pregava a volta ao rústico, ao primitivo, à simplicidade e a beleza das coisas simples, além de defender a "desobediência civil" (título de um dos mais famosos artigos seus que, em tempo de eleições, também merece resgate) e, em uma de suas frases célebres, afirmou: "O melhor governo é aquele que menos governa (...) e quando estivermos preparados para isso, serei a favor de um governo que não governa". Seus textos inspiraram uma série de figuras importantes da história da humanidade (de Léon Tolstói a Gandhi e Martin Luther King), porém, hoje, é um pensador pouco lembrado.


Em um de seus belos textos, "Andar a pé" (ou "Caminhando", dependendo da tradução), Henry Thoreau discute, em determinado momento, também, a literatura e os aspectos que a circundam, a poesia e a fantasia, numa perspectiva bastante singular:


"(...) Em literatura, só o rústico nos atrai. Frouxidão é apenas outro nome para mansidão. É o pensamento incivilizado, livre e bruto em “Hamlet” e na “Ilíada”, em todas as Escrituras e Mitologias, não aprendidas nas escolas, que nos delicia. Assim como o pato selvagem é mais veloz e mais belo do que o pato doméstico, assim também é o pensamento rústico, o qual de permeio com o orvalho cadente, alça seu vôo por cima das cercas. Um livro verdadeiramente bom é algo tão natural e tão inesperada e inexplicavelmente belo e perfeito como uma flor silvestre descoberta nas pradarias do Oeste ou nas selvas de Leste. O gênio é uma luz que torna visíveis as trevas, como o resplendor do relâmpago que, talvez, despedace o próprio templo da sapiência — e não uma vela acesa na flama da raça, que empalidece ante a luz comum do dia.

A literatura inglesa, desde os dias dos menestréis aos poetas laquistas — Chaucer e Spenser e Milton e mesmo Shakespeare inclusive — , não respira atmosfera completamente pura e, neste sentido, tom rústico. É uma literatura civilizada e essencialmente mansa, refletindo Grécia e Roma. Sua rusticidade é uma mata verde, seu homem selvagem, um Robin Hood. Há abundância de amor genial da natureza, mas não tanto da verdadeira natureza. Suas crônicas dão-nos conta de quando seus animais selvagens, e não o homem selvagem, tornaram-se extintos.

A ciência de Humboldt é uma coisa, a poesia é outra coisa. O poeta de hoje, em que pesem todas as descobertas da ciência e os conhecimentos acumulados da humanidade não apresentam vantagem sobre Homero.

Onde se encontra a literatura que dá expressão à natureza? Seria bom poeta aquele que pudesse imprimir os ventos e os rios em sua obra, para falarem por ele; aquele que fixasse as palavras às suas significações primitivas, assim como os fazendeiros enterram estacas no oitão que a geada fendeu; aquele que deduzisse suas palavras, sempre que as empregasse, transplantava-as para suas páginas ainda com terra aderente às raízes; aquele cujas palavras fossem tão verdadeiras, frescas e naturais que pareceriam expandir-se como os botões de rosas à aproximação da Primavera, embora permanecessem meio sufocados entre duas folhas fétidas numa biblioteca — sim, florescer e ostentar fruto lá, segundo sua espécie, anualmente, para o leitor fiel, em harmonia com a natureza ambiente.

Não tenho conhecimento de qualquer poesia que possa citar e que expresse convenientemente esta ternura pelo rústico. Que se aproxime desse estilo, o que há de melhor é medíocre. Não sei onde encontrar em qualquer literatura, antiga ou moderna, qualquer notícia que me encha daquela natureza com a qual estou ambientado. Percebereis que exijo alguma coisa que nenhuma idade, de Augusto ou de Elizabeth, que nenhuma cultura, em suma, pode dar. A mitologia aproxima-se desse ideal mais do que qualquer coisa. Em que natureza muito mais fértil não tem suas raízes a mitologia grega do que a literatura inglesa! A mitologia é o fruto que o Velho Mundo produziu antes de se exaurir o seu solo, antes que a fantasia e a imaginação fossem afetadas pela praga; e que ainda produz, onde seu vigor primitivo não se abate. Todas as outras literaturas resistem, apenas, como os olmos, que sombreiam as nossas casas; mas isto é como a grande árvore-dragão das Antilhas, tão velha como a humanidade, e, verdade ou não, resistirá tempo igual, pois a decadência de outras literaturas prepara o solo sobre o qual ela florescerá.

(...)

Os mais rústicos sonhos dos homens selvagens não são os menos verdadeiros, posto que não se possam recomendar ao senso comum de hoje dos Ingleses e Americanos. Não é toda verdade que se recomenda ao senso comum. A natureza reserva um lugar para a vinha silvestre assim como para a couve. Algumas expressões da verdade são reminiscentes, outras meramente sensíveis, como a frase, e outras, proféticas. Algumas formas de doença podem até ser prenúncios de formas de saúde. O geólogo descobriu que as figuras de serpentes, grifos, dragões voadores e outros fantásticos embelezamentos de brasões têm seus protótipos nas formas de espécies fósseis que foram extintas antes da criação do homem e, daí, “indicam um conhecimento fraco e sombrio de um prévio estágio de existência orgânica”. Os Indus sonharam que a Terra repousava sobre um elefante, o elefante numa tartaruga e a tartaruga numa serpente: e, posto que seja o caso duma coincidência sem importância, não virá fora de propósito lembrar-se aqui que se descobriu recentemente na Ásia uma tartaruga fóssil, suficientemente grande para suportar um elefante. Confesso-me suspeito no que tange a estas fantasias do agreste, que transcendem a ordem do tempo e a do progresso. São o recreio mais sublime do intelecto. A perdiz ama a ervilha, exceto a que, com ela, vai para a panela.

Enfim, tudo que é bom é agreste e livre. Existe algo numa nota musical, seja produzido por um instrumento, ou pela voz humana — tomai para exemplo o som de uma corneta numa noite de Verão — que, por sua rusticidade, falando sem ironia, recorda-me os gritos emitidos pelas feras selvagens em suas florestas nativas. Pelo que infiro, trata-se de qualquer coisa da sua rusticidade. Dai-me para amigos e vizinhos homens selvagens, e não civilizados. A rusticidade do selvagem é apenas um pálido símbolo da terrível ferocidade que preside à sociabilidade dos homens e dos amantes. (...)"

THOREAU, Henry David, Andar a pé. (Tradução de Sarmento de Beires e José Duarte)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

O Basílio de Marisa

Já reparou na homenagem feita no clipe de "Amor, I love you", de Marisa Monte? Trata-se de uma referência feita a partir de uma citação colocada na canção. Declamado por Arnaldo Antunes, o trecho remete a uma das obras máximas de Eça de Queirós: "O Primo Basílio". O vídeo, dirigido por Breno Silveira (que, posteriormente, dirigiria o sucesso "Dois Filhos de Francisco" e "Era uma vez" - em cartaz no país), relê o clássico do autor português tendo os dois cantores/compositores mencionados atuando como os principais personagens desta famosa história. Ganhador de vários prêmios na época de seu lançamento, "Amor, I love you" vale-se principalmente da bela fotografia e direção de arte para recontar essa história, numa singela homenagem. Leia o livro, assista ao clipe e faça a sua comparação.

CLIQUE AQUI PARA ABRIR O VÍDEO NO YOUTUBE!

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Um aniversário - outro aniversário!

“A felicidade só é real quando compartilhada.”
Christopher McCandless
Hoje é o meu aniversário (eu, Vinicius Rodrigues, um dos colaboradores deste blog). Não que isso seja importante,mas lembremos de um poema do mestre Fernando Pessoa sobre a passagem do tempo, assinado pelo heterônimo Álvaro de Campos. “Aniversário” é um texto que carrega um certo ressentimento, entretanto, trata-se de uma bela reflexão.

*

"Aniversário", de Álvaro de Campos

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Jeca Tatu: o caboclo de Monteiro Lobato.











Monteio Lobato foi uma personalidade da intelectualidade brasileira: dedicou-se à literatura infanto-juvenil (praticamente a criou), iniciou a estruturação das grandes editoras nacionais,
observou a nossa realidade e criou Jeca Tatu, um dos ícones do nosso imaginário. A
personagem apareceu, primeiramente, em um artigo de nome "Urupês" e foi agregado ao livro de contos que leva o mesmo nome, em 1918. A figura do caboclo (o
caboclismo de Lobato) surge descrita de maneira negativa. Posteriormente, em
1920, Jeca Tatu surge como imagem de uma campanha publicitária para o
laboratório Fontoura Serpe & Cia. Abaixo temos o trecho final do conto
"Urupês" e, em seguida, o texto publicitário, escrito, também, por
Lobato.

Trecho de "Urupês":
(...)
O caboclo é soturno.
Não canta senão rezas lúgrubes.
Não dança senão o cateretê aladainhado.
Não esculpe o cabo da faca, como o cabila.
Não compõe sua canção, como o felá do Egito.
No meio da natureza basílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança do angarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionísica em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas.
Só ele não fala, não canta, não ri, não ama.
Só ele, no meio de tanta vida, não vive...
Referêcia: LOBATO, Monteiro. Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1997. (1. ed. 1918).

Criação Publicitária: Jeca Tatuzinho.

I
Jeca Tatu era um pobre caboclo que morava no mato, numa casinha de sapé. Vivia na maior pobreza, em companhia da mulher, muito magra e feia, e de vários filhinhos pálidos e tristes. Jeca Tatu passava os dias de cócoras, pitando enormes cigarrões de palha, sem ânimo de fazer coisa nenhuma. Ia ao mato caçar, tirar palmitos, cortar cachos de brejaúva, mas não tinha idéia de plantar um pé de couve atrás da casa. Perto corria um ribeirão, onde ele pescava de vez em quando uns lambaris e um ou outro bagre. E assim ia vivendo. Dava pena ver a miséria do casebre. Nem móveis, nem roupas, nem nada que significasse comodidade. Um banquinho de três pernas, umas peneiras furadas, a espingardinha de carregar pela boca, muito ordinária, e só. Todos que passavam por ali, murmuravam: - Que grandessíssimo preguiçoso!

II
Jeca Tatu era tão fraco que, quando ia lenhar, vinha com um feixinho que parecia brincadeira. E vinha arcado, como se estivesse carregando um enorme peso. - Por que não traz de uma vez um feixe grande? perguntaram-lhe um dia. Jeca Tatu cortou a barbicha rala e respondeu: - Não paga a pena. Tudo para ele não pagava a pena. Não pagava a pena consertar a casa, nem fazer uma horta, nem plantar árvores de fruta, nem remendar a roupa. Só pagava a pena beber pinga. - Por que você bebe, Jeca? diziam-lhe. - Bebo para esquecer. - Esquecer do quê? - Esquecer as desgraças da vida. E os passantes murmuravam: - Além de vadio, bêbado ...

III
Jeca possuía muitos alqueires de terra, mas não sabia aproveitá-la. Plantava todos os anos uma rocinha de milho, outra de feijão, uns pés de abóbora e mais nada. Criava em redor da casa um ou outro porquinho e meia dúzia de galinhas. Mas o porco e as aves que cavassem a vida, porque Jeca não lhes dava o que comer. Por esse motivo o porquinho nunca engordava, e as galinhas punham poucos ovos. Jeca possuía ainda um cachorro, o Brinquinho, magro e sarnento, mas bom companheiro e leal amigo. Brinquinho vivia cheio de bernes no lombo e muito sofria com isso. Pois apesar dos ganidos do cachorro, Jeca não se lembrava de lhe tirar os bernes. Por que? Desânimo, preguiça... As pessoas que viam aquilo, franziam o nariz. - Que criatura imprestável! Não serve nem para tirar berne de cachorro...

IV
Jeca só queria beber pinga e espichar-se ao sol, no terreiro. Ali ficava horas, com o cachorrinho rente, cochilando. A vida que rodasse, o mato que crescesse na roça, a casa que caísse. Jeca não queria saber de nada. Trabalhar não era com ele. Perto morava um italiano já bastante arranjado, mas que ainda assim trabalhava o dia inteiro. Por que Jeca não fazia o mesmo? Quando lhe perguntavam isso, ele dizia: - Não paga a pena plantar. A formiga come tudo. - Mas como é que seu vizinho italiano não tem formiga no sítio? - É que ele mata. E por que você não faz o mesmo? Jeca coçava a cabeça, cuspia por entre os dentes e vinha sempre com a mesma história: - Quá! Não paga a pena ... - Além de preguiçoso, bêbado; e além de bêbado, idiota, era o que todos diziam.

V
Um dia um doutor portou lá por causa da chuva e espantou-se de tanta miséria. Vendo o caboclo tão amarelo e magro, resolveu examiná-lo. - Amigo Jeca, o que você tem é doença. - Pode ser. Sinto uma canseira sem fim, e dor de cabeça, e uma pontada aqui no peito, que responde na cacunda. - Isso mesmo. Você sofre de ancilostomíase. - Anci... o que? - Sofre de amarelão, entende? Uma doença que muitos confundem com a maleita. - Essa tal maleita não é sezão? - Isso mesmo. Maleita, sezão, febre palustre ou febre intermitente: tudo a mesma coisa. A sezão também produz anemia, moleza e esse desânimo do amarelão; mas é diferente. Conhece-se a maleita pelo arrepio ou calafrio que dá, pois é uma febre que vem sempre em horas certas e com muito suor. Quem sofre de sezão sara com o MALEITOSAN FONTOURA. Quem sofre de amarelão sara com a ANKILOSTOMINA FONTOURA. Eu vou curar você.

VI
O doutor receitou um vidro de ANKILOSTOMINA FONTOURA, para tomar assim: seis comprimidos hoje pela manhã e outros seis amanhã de manhã. - Faça isto duas vezes, com o espaço de uma semana. E de cada vez tome também um purgante de sal amargo, se duas horas depois de ter ingerido a ANKILOSTOMINA não tiver evacuado. E trate de comprar um par de botinas e alguns vidros de BIOTÔNICO e nunca mais me ande descalço e nem beba pinga, ouviu? - Ouvi, sim, senhor! - Pois é isso, rematou o doutor, tomando o chapéu. A chuva já passou e vou-me embora. Faça o que mandei, que ficará forte, rijo e rico como o italiano. Na semana que vem estarei aqui de volta. - Até por lá, sêo doutor! Jeca ficou cismando. Não acreditava muito nas palavras da Ciência, mas por fim resolveu comprar os remédios, e também um par de botinas ringideiras. Nos primeiros dias foi um horror. Ele andava pisando em ovos. Mas acostumou-se, afinal...

VII
Quando o doutor voltou, Jeca estava bem melhor, graças à ANKILOSTOMINA e ao BIOTÔNICO. O doutor mostrou-lhe com uma lente o que tinha saído das suas tripas: - Veja, sêo Jeca, que bicharia tremenda estava você a criar na barriga! São os tais ancilóstomos, uns bichinhos dos lugares úmidos, que entram pelos pés, vão varando pela carne adentro até alcançarem os intestinos. Chegando lá, grudam-se nas tripas e escangalham com o freguês. Tomando a ANKILOSTOMINA, você bota fora todos os ancilóstomos que tem no corpo. E andando sempre calçado, não deixa que entrem os que estão na terra. Fazendo isso e fortalecendo-se com alguns vidros de BIOTÔNICO, ovos e leite, você fica livre da doença para sempre. Jeca abriu a boca, maravilhado. - Os anjos digam amém, sêo doutor!

VIII
Mas Jeca não podia acreditar numa coisa: que os bichinhos entrassem pelo pé. Ele era "positivo" e dos tais que "só vendo". O doutor resolveu abrir-lhe os olhos: Levou-o a um lugar úmido, atrás de casa, e disse: - Tire a botina e ande um pouco por aí. Jeca obedeceu. - Agora venha cá. Sente-se. Bote o pé em cima do joelho. Assim. Agora examine a pele com essa lente. Jeca tomou a lente, olhou e percebeu vários vermes pequeninos que já estavam penetrando na sua pele, através dos poros. O pobre homem arregalou os olhos, assombrado. - E não é que é mesmo? Quem "haverá" de dizer!... - Pois é isso, sêo Jeca, e daqui por diante não duvide mais do que disser a Ciência. - Nunca mais! Daqui por diante dona Ciência está dizendo, Jeca está jurando em cima! T'esconjuro! E pinga, então, nem para remédio...

IX
Tudo o que o doutor disse aconteceu direitinho! Três meses depois ninguém mais conhecia o Jeca. A ANKILOSTOMINA curou-o do Amarelão. O BIOTÔNICO deixou-o bonito, corado, forte como um touro. A preguiça desapareceu. Quando ele agarrava no machado, as árvores tremiam de pavor. Era pã, pã, pã... horas seguidas, e os maiores paus não tinham remédio senão cair. E Jeca, cheio de coragem, botou abaixo o capoeirão, para fazer uma roça de três alqueires. E plantou eucaliptos nas terras que não se prestavam para cultura. E consertou todos os buracos da casa. E fez um chiqueiro para os porcos. E um galinheiro para as aves. O homem não parava, vivia a trabalhar com fúria que espantou até o seu vizinho italiano. - Descanse um pouco, homem! Assim você arrebenta... diziam os passantes. - Quero ganhar o tempo perdido, respondia ele, sem largar do machado. Quero tirar a prosa do "italiano".

X
Jeca, que era um medroso, virou valente. Não tinha mais medo de nada, nem de onça! Uma vez, ao entrar no mato, ouviu um miado estranho. - Onça! Exclamou ele. É onça e eu aqui sem uma faca!... Mas não perdeu a coragem. Esperou a onça, de pé firme. Quando a fera o atacou, ele ferrou-lhe tamanho murro na cara que a bicha rolou no chão, tonta. Jeca avançou de novo, agarrou-a pelo pescoço e estrangulou-a. - Conheceu, papuda? Você pensa que está lidando com algum pinguço opilado? Fique sabendo que tomei ANKILOSTOMINA e BIOTÔNICO e uso botina ringideira!... A companheira da onça, ao ouvir essas palavras, não quis saber de histórias - azulou! Dizem que até hoje está correndo...

XI
Ele, que antigamente, quando lenhava, só trazia três pausinhos, carregava agora cada feixe que metia medo. E carregava-os sorrindo, como se o enorme peso não passasse de brincadeira. - Amigo Jeca, você arrebenta! diziam-lhe. Onde se viu carregar tanto pau de uma vez? - Já não sou aquele de dantes! Isto para mim agora é canja... respondia o caboclo, sorrindo. Quando teve de aumentar a casa, foi a mesma coisa. Derrubou no mato grossas perobas, atorou-as, lavrou-as e trouxe no muque para o terreiro as toras todas. Sozinho! - Quero mostrar a essa paulama quanto vale um homem que tomou ANKILOSTOMINA e BIOTÔNICO, que usa botina cantadeira e que não bebe nem um só martelinho de cachaça! O italiano via aquilo e coçava a cabeça. - Se eu não tropicar direito, este diabo me passa na frente. Per Bacco!

XII
Dava gosto ver suas roças. Comprou arados e bois, e não plantava nada sem primeiro afofar a terra. O resultado foi que os milhos vinham lindos e o feijão era uma beleza. O italiano abria a boca, admirado, e confessava nunca ter visto roças assim. E Jeca já não plantava rocinhas, como antigamente. Só queria saber de roças grandes, cada vez maiores, que fizessem inveja no bairro. E se alguém lhe perguntava: - Mas para que tanta roça, homem? ele respondia: - É que agora quero ficar rico. Não me contento com trabalhar para viver. Quero cultivar todas as minhas terras, e depois formar aqui duas enormes fazendas - a Fazenda Ankilostomina e Fazenda Biotônico. E hei de ser até coronel... E ninguém duvidava mais. O italiano dizia: - E forma mesmo! E vira mesmo coronel! Per la Madonna!...

XIII
Por esse tempo, o doutor passou por lá e ficou admiradíssimo com a transformação de seu doente. Esperara que ele sarasse, mas não contara com tal mudança. Jeca o recebeu de braços abertos e apresentou-o à mulher e aos filhos. Os meninos cresciam viçosos, e viviam brincando, contentes como os passarinhos. E toda gente ali andava calçada. O caboclo ficara com tanta fé no calçado, que metera botinas até nos animais caseiros! Galinhas, patos, porcos, tudo de sapatinho nos pés! O galo, esse andava de bota e espora! - Isso também é demais, sêo Jeca, disse o doutor. Isso é contra a natureza! - Bem sei. Mas quero dar um exemplo a esta caipirada bronca. Eles vêm aqui, vêem isso e não se esquecem mais da história.

XIV
Em pouco tempo os resultados foram maravilhosos. A porcada aumentou de tal modo, que vinha gente de longe admirar aquilo. Jeca adquiriu um caminhão, e em vez de conduzir os porcos ao mercado pelo sistema antigo, levava-os de auto, num instantinho, buzinando pela estrada afora, fon-fon! Fon-fon! ... As estradas eram péssimas; mas ele consertou-as à sua custa. Jeca parecia um doido. Só pensava em melhoramentos, progressos, coisas americanas. Aprendeu logo a ler, encheu a casa de livros e por fim tomou um professor de inglês. - Quero falar a língua dos bifes para ir aos Estados Unidos ver como é lá a coisa. O seu professor dizia: - O Jeca só fala inglês agora. Não diz porco; é pig. Não diz galinha; é hen... Mas de álcool, nada. Antes quer ver o demônio, que um copinho da "branca"...

XV
Jeca só fumava charutos fabricados especialmente para ele, e só corria as roças montado em cavalos árabes de puro sangue. - Quem o viu e quem o vê! Nem parece o mesmo. Está um "estranja" legítimo, até na fala. Na "Fazenda Biotônico" havia de tudo. Campos de alfafa. Pomares belíssimos com quanta fruta há no mundo. Até criação do bicho-da-seda; Jeca formou um amoreiral que não tinha fim. - Quero que tudo aqui ande na seda, mas seda fabricada em casa. Até os sacos aqui da fazenda tem que ser de seda, para moer os invejosos... E ninguém duvidava de nada. - O homem é mágico, diziam os vizinhos. Quando assenta de fazer uma coisa, faz mesmo, nem que seja um despropósito...

XVI
A "Fazenda Biotônico" tornou-se famosa no país inteiro. Tudo ali era por meio do rádio e da eletricidade. Jeca, de dentro do seu escritório, tocava num botão e o cocho do chiqueiro se enchia automaticamente de rações muito bem dosadas. Tocava outro botão e um repuxo de milho atraía todo o galinhame!... Suas roças eram ligadas por telefones. Da cadeira de balanço na varanda, ele dava ordens aos feitores, lá longe. Chegou a mandar buscar nos Estados Unidos um aparelho de televisão. - Quero aqui desta varanda ver tudo o que se passa em minha fazenda. E tanto fez, que viu. Jeca instalou os aparelhos, e assim pôde, da sua varanda, com o charutão na boca, não só falar por meio do rádio para qualquer ponto da fazenda, como ainda ver, por meio da televisão, o que os camaradas estavam fazendo.

XVII
Ficou rico e estimado, como era natural; mas não parou aí. Resolveu ensinar o caminho da saúde aos caipiras das redondezas. Para isso montou na fazenda e vilas próximas vários POSTOS DE MALEITOSAN, onde tratava os enfermos de sezões; e também POSTOS DE ANKILOSTOMINA, onde curava os doentes de amarelão e outras verminoses. E quando algum empregado sentia alguma dor de cabeça, se estava resfriado, Jeca arrumava-lhe uns dois ou três comprimidos de Fontol, e imediatamente o homem estava bom, e pronto para o serviço. O seu entusiasmo era enorme. "Hei de empregar tôda minha fortuna nesta obra de saúde geral, dizia. Meu patriotismo é este. Minha divisa: Curar gente. Abaixo a bicharia! Viva o Biotônico! Viva ANKILOSTOMINA! Viva o Maleitosan! Viva o Fontol!" A estes vivas o coronel Jeca aumentou mais um. Foi quando apareceu o grande "liquida-insetos" chamado DETEFON e ele o experimentou na miuçalha da fazenda: pulgas, percevejos, piolhos, baratas, pernilongos e moscas. Deixou aquilo lá sem um só bichinho para remédio. Não contente com isso, Jeca tomou o hábito de nunca sair a cavalo ou de automóvel sem levar a tiracolo a bomba de pulverizar o DETEFON. Entrava nos casebres de beira de caminho e antes do "Bom dia!" punha-se fon, fon, fon, detefon, a pulverizar tudo, coisas e gentes. Quando acaba, dizia: - Ninguém faz a conta dos males que estes bichinhos causam à humanidade, como transmissores de moléstias... e dava mais umas bombadas de lambuja. E a curar gente da roça passou Jeca toda a sua vida. Quando morreu, aos 89 anos, não teve estátua ou grandes elogios nos jornais. Mas ninguém ainda morreu de consciência mais tranqüila. Havia cumprido o seu dever até o fim.

XVIII
Meninos: nunca se esqueçam desta história; e, quando crescerem, tratem de imitar o Jeca. Se forem fazendeiros, procurem curar os camaradas. Além de ser para eles um grande benefício, é para você um alto negócio. Você verá o trabalho dessa gente produzir três vezes mais. Uma país não vale pelo tamanho, nem pela quantidade de habitantes. Vale pelo trabalho que realiza e pela qualidade da sua gente. Ora, ter mais saúde é a grande qualidade de um povo. Tudo mais vem daí. E o grande remédio que combate o amarelão, esse mal terrível que tantos braços preciosos rouba ao trabalho, é a ANKILOSTOMINA. Assim como o grande conservador da saúde, que produz energia, força e vigor, chama-se BIOTÔNICO FONTOURA.

Fonte: http://www.lobato.globo.com/
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Para quem tiver curiosidade: a Rádio Record, em 1948, fez uma entrevista com Monteiro Lobato. São vários minutos de irreverência, nos quais o autor fala de petróleo e de literatura, de política e de estado de espírito. Vale a pena!

Entrevista:
parte 1 - http://www.youtube.com/watch?v=KD9LdEbvp1I
parte 2 - http://www.youtube.com/watch?v=yqJhKab_RJw
parte 3 - http://www.youtube.com/watch?v=JXkUdCdQrrU

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

"Queixa de Defunto", de Lima Barreto

No texto abaixo, o autor do início do século passado exprime uma de suas maiores marcas: a denúncia social. Por meio de uma fina ironia, bem ao estilo machadiano, a crítica mostra-se bastante atual, mesmo descolado o contexto no qual Barreto produziu sua crônica. Dica do nosso amigo Luis Fernando Kalife Jr.

*

Antônio da Conceição, natural desta cidade, residente que foi em vida, na Boca do Mato, no Méier, onde acaba de morrer, por meios que não posso tomar público, mandou-me a carta abaixo que é endereçada ao prefeito. Ei-la:

"Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito do Distrito Federal. Sou um pobre homem que em vida nunca deu trabalho às autoridades públicas nem a elas fez reclamação alguma. Nunca exerci ou pretendi exercer isso que sé chama os direitos sagrados de cidadão. Nasci, vivi e morri modestamente, julgando sempre que o meu único dever era ser lustrador de móveis e admitir que os outros os tivessem para eu lustrar e eu não.
Não fui republicano, não fui florianista, não fui custodista, não fui hermista, não me meti em greves, nem coisa alguma de reivindicações e revoltas, mas morri na santa paz do Senhor quase sem pecados e sem agonia.
Toda a minha vida de privações e necessidades era guiada pela esperança de gozar depois de minha morte no sossego, uma calma de vida que não sou capaz de descrever, mas que pressenti pelo pensamento, graças à doutrinação das seções católicas dos jornais.
Nunca fui ao espiritismo, nunca fui aos 'bíblias', nem a feiticeiros, e apesar de ter tido um filho que penou dez anos nas mãos dos médicos, nunca procurei macumbeiros nem médiuns.
Vivi uma vida santa e obedecendo às prédicas do Padre André do Santuário do Sagrado Coração de Maria, em Todos os Santos, conquanto as não entendesse bem por serem pronunciadas com toda a eloqüência em galego ou vasconço.

Segui-as, porém, com todo o rigor e humildade, e esperava gozar da mais dúlcida paz depois de minha morte. Morri afinal um dia destes. Não descrevo as cerimônias porque são muito conhecidas e os meus parentes e amigos deixaram-me sinceramente porque eu não deixava dinheiro algum. É bom meu caro Senhor Doutor Prefeito, viver na pobreza, mas muito melhor é morrer nela. Não se levam para a cova maldições dos parentes e amigos deserdados; só carregamos lamentações e bênçãos daqueles a quem não pagamos mais a casa.
Foi o que aconteceu comigo e estava certo de ir direitinho para o Céu, quando, por culpa do Senhor e da Repartição que o Senhor dirige, tive que ir para o inferno penar alguns anos ainda.
Embora a pena seja leve, eu me amolei, por não ter contribuído para ela de forma alguma. A culpa é da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro que não cumpre os seus deveres, calçando convenientemente as ruas.

Vamos ver por quê. Tendo sido enterrado no cemitério de Inhaúma e vindo o meu enterro do Méier, o coche e o acompanhamento tiveram que atravessar em toda a extensão a rua José Bonifácio, em Todos os Santos.
Esta rua foi calçada há perto de cinqüenta anos a macadame e nunca mais foi o seu calçamento substituído. Há caldeirões de todas as profundidades e largura, por ela afora. Dessa forma, um pobre defunto que vai dentro do caixão em cima de um coche que por ela rola, sofre o diabo. De uma feita um até, após um trambolhão do carro mortuário, saltou do esquife, vivinho da silva, tendo ressuscitado com o susto.
Comigo não aconteceu isso, mas o balanço violento do coche, machucou-me muito e cheguei diante de São Pedro cheio de arranhaduras pelo corpo. O bom do velho santo interpelou-me logo:
- Que diabo é isto? Você está todo machucado! Tinham-me dito que você era bem comportado - como é então que você arranjou isso? Brigou depois de morto?
Expliquei-lhe, mas não me quis atender e mandou que me fosse purificar um pouco no inferno.
Está aí como, meu caro Senhor Doutor Prefeito, ainda estou penando por sua culpa, embora tenha tido vida a mais santa possível. Sou, etc., etc."

Posso garantir a fidelidade da cópia e aguardar com paciência as providências da municipalidade.

Careta, 20-3-1920.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Curso de extensão em teoria literária na UFRGS!

Atenção, pessoal!
A partir do mês de Agosto começa uma belo curso de extensão que o Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul promoverá, na figura da Dra. Rita Lenira Bittencourt e alunos de graduação em Letras. Seguem as informações sobre ele logo abaixo:


ESTUDOS DE TEORIA LITERÁRIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA

Terá início na quarta-feira (dia 27/08/2008) o curso que funciona como uma continuidade à disciplina de Teoria Literária II da graduação em Letras da UFRGS. Ocorrerá às 18h30min na FACED (Campus Centro da universidade), na sala 302.

Será discutido, neste primeiro encontro, o livro de Ítalo Calvino "Seis propostas para o próximo milênio" e será montado o cronograma das leituras seguintes.

Ainda há vagas! Quem quiser pode se inscrever ou na sala 211 do Instituto de Letras (Campus do Vale) ou no local. Taxa de R$ 4,00 para certificação. Discussões mediadas pela Prof. Dra. Rita Lenira de Freitas Bittencourt.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

“Os ‘velhos’ pretendem a arte-habilidade; os 'novos' pretendem a arte-sonho”


“O Nefelibatismo” é, na verdade, um trecho selecionado de uma das entrevistas realizadas por João do Rio*. O jornalista conversava, na ocasião, com Gustavo Santiago, um autor brasileiro dedicado ao Simbolismo e à defesa dessa proposta estética.

O NEFELIBATISMO
"— No que importa à prosa e à poesia contemporâneas, separadamente, parece-lhe que no momento atual, no Brasil, atravessamos um período estacionário? Haverá novas escolas? Haverá luta entre escolas antigas e modernas?
— No que refere à poesia, ou, melhor, ao verso, julgo não errar, assegurando ser o momento de luta. Há, de um lado, o parnasianismo, que, agonizante, a debater-se nas vascas da morte, tenta por todas as formas resistir, apegando-se até à tabua de salvação de todas as inteligências extintas do classicismo; há de outro lado, o que, de maneira geral, se convencionou denominar no Brasil e em Portugal nefelibatismo, e que tão desastradamente tem sido interpretado e compreendido entre nós. (...) Não estamos no verso estacionário; as duas coortes em frente provam o inverso, a atividade. Enquanto os parnasianos, unidos aos clássicos e aos românticos, que ainda os há, querem o statu quo, a conservação de fórmulas que o tempo e o uso imoderado tornaram imorais, como o adjetivo com a acepção rigorosa do dicionário, o número de sílabas muito de acordo com os compêndios, os acentos muito direitinhos nos respectivos lugares, a imagem muito terra-a-terra, a suportar a análise do burguês, a rastejar, a rima a opulentar-se ridiculamente num trabalho todo de paciência e rebuscamento por alfarrábios e empoados cadernos de sacristia, — os nefelibatas, insurgindo-se, arremetem contra tudo isso, na prédica do verso livre, na afirmação alta da imagem com asas, pairando inacessível em regiões estelares, em mundos outros que não os devassáveis pelo olho filisteu. Os 'velhos' pretendem a arte-habilidade; os 'novos' pretendem a arte-sonho. Os primeiros, partindo do ponto de vista falso de que a paisagem nada mais é do que um quadro, de que o homem nada mais é do que um simples animal obedecendo estritamente às leis biofisiológicas, que governam todos os outros, baniram da arte a emoção, o sentimento, a jungi-la ao termo preciso, a senhoreá-la à descritiva, a nivelá-la à fotografia. Os segundos, tomando como verdade o pensamento de Amiel, de que a paisagem nada mais é senão um estado de alma e de que o homem, com ser um animal, não é menos um coração, nem menos um espírito, procuram reintegrar a emoção, recolocar no altar o sentimento. (...).
Na poesia, pois, e em resumo, eu diviso duas orientações diferentes, em antagonismo, disputando-se valorosamente o predomínio do momento, ainda que sem fragor, nem escândalo — o parnasianismo e o nefelibatismo —, o primeiro, correspondendo, na ordem filosófica, ao materialismo; o segundo ao espiritualismo. (...)."

A discussão Parnasianismo X Simbolismo está em pauta. Não interessa, portanto, apenas aos livros didáticos pensar os contrastes entre as duas correntes estéticas: os autores e os jornalistas do século XIX interessavam-se pela análise de suas oposições e aproximações. Gustavo Santiago sintetiza, talvez de maneira tendenciosa - afinal, ele era um autor Decadentista - as principais tendências desses dois Movimentos Literários. Podemos indagar: afinal, qual é a importância desta reflexão? As palavras de João do Rio, enunciadas na introdução do livro, indicam que a observação da produção literária era um meio para compreensão da cultura nacional.


* João do Rio era o pseudônimo usado pelo jornalista, cronista, contista e teatrólogo, Paulo Barreto (1881-1921). O excerto acima foi retirada do livro “O Momento Literário”, publicado em 1907. Nesta obra, o jornalista realizou um conjunto de entrevistas realizado com diversos nomes do meio cultural brasileiro do século XIX.

- Referência: RIO, João do. O Momento Literário. Editora Criar, 2006.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

"Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores?"

Uma dica ótima: nos últimos anos, os documentaristas brasileiros têm dado um show no que diz respeito à produção cinematográfica no país. Um respiro e um ar de esperança para aqueles que aguardam também biografias dignas de artistas consagrados e figuras marcantes da cultura brasileira. "Vinicius", de 2005, dirigido por Miguel Faria Jr., é uma das maiores jóias dessa nova safra de filmes de não-ficção nacionais. Vale muito uma olhada atenta nesta obra que parte da filmagem de um sarau sobre este que é um dos nossos maiores escritores, Vinicius de Moraes, para narrar a sua trajetória como poeta, cantor e compositor, suas dores e seus amores. Um dos poucos membros da intelectualidade brasileira que efetivamente aproximou-se de um grande público, Vinicius tem sua vida rememorada através de depoimentos de pessoas próximas e outras grandes figuras da cultura brasileira (Ferreira Gullar, Chico Buarque, Caetano Veloso, Antonio Cândido, Tônia Carrero, Maria Bethânia, entre outros), além do resgate em áudio e vídeo de depoimentos do próprio poeta, numa estrutura incomum de documentário que envolve ainda performances musicais gabaritadas (Yamandú Costa, Monica Salmaso, Adriana Calcanhotto, Zeca Pagodinho e outros), misturadas a belas declamações de poesia (dos atores Ricardo Blat e Camila Morgado, também narradores do documentário), além da estrutura documental clássica entremeando as falas e canções. Obrigatório!

Abaixo, uma pequena seleção de alguns dos melhores trechos do filme (clique sobre eles para abrir o link do vídeo no Youtube):

- “Canto de Ossanha” - Vinicius e Baden Powell, informalmente, cantam um clássico de autoria da dupla.

- “Além do Amor” / Vinicius fala sobre a primeira esposa

- “Soneto do Amor Total”, por Maria Bethânia

- Whisky / “Pela Luz dos Olhos Teus”, com Vinicius e Tom Jobim

- Depoimentos sobre Vinícius de Moraes – amizade, felicidade e outras coisinhas

sexta-feira, 18 de julho de 2008

No Realismo, a arte imita a vida.

Na primeira postagem deste blog (que pode ser vista ainda, caso alguém esteja interessado), foi colocado um brilhante texto de Machado de Assis: "O Escravo Pancrácio", publicado originalmente numa coluna de crônicas do escritor. Pois bem, foi visto aqui também que a releitura do conto do mesmo autor, "Pai Contra Mãe", no filme "Quanto vale ou é por quilo?", de Sérgio Bianchi, torna mais evidente a ligação deste escritor com o seu tempo, visto que o episódio retratado no filme trata-se de um caso real documentado (um pequeno trecho dessa releitura, disponível no youtube, também consta entre as postagens abaixo). Então, para fins de comparação com o conto/crônica de Pancrácio, o escravo, segue abaixo um trecho elucidativo:

"A literatura imita a história no testemunho do fazendeiro Paula Sousa que comentava com seu colega baiano:
'Desde 1º de Janeiro não possuo um só escravo. Libertei todos e liguei-os a casa por um contrato igual ao que tinha com os colonos estrangeiros (...). Bem vês que meu escravismo é tolerante e suportável (...). Dei-lhes liberdade completa, incondicional, e no pequeno discurso que lhes fiz, falei-lhes dos graves deveres da liberdade lhes impunha e disse-lhes algumas palavras inspiradas no coração...No ponto de vista literário, fiz um fiasco completo por que chorei também'.
Essa carta, entre outras, somou-se a editorais e artigos publicados em abril e março de 1888 com o mesmo teor apresentando da concepção de liberdade reinante entre os senhores de escravos em pleno momento abolicionista."

CASTRO, Hebe M. Mattos de. "Laços de família e direitos no final da escravidão". In: ALENCASTRO, Luiz Felipe de. História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.365-366.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A Literatura como fonte histórica

Para quem ainda tem alguma dúvida do diálogo que a literatura proporciona com o seu tempo, a ANPUH (Associação Nacional dos Professores Universitários de História) promove seu encontro regional em Porto Alegre com o seguinte tema: "Vestígios do Passado - A História e Suas Fontes". Neste encontro, além da discussão acerca das fontes históricas tradicionais, haverá debates relacionando a literatura como elemento de pesquisa historiográfica. Abaixo, algumas dicas de Simpósios Temáticos, mesas e palestras legais.

O evento ocorre nesta semana, entre os dias 14 e 18, no Campus do Vale da UFRGS, nos locais e horários indicados.

15/07 - Terça-feira - Tarde (14h às 18h)MINI-AUDITÓRIO - PRÉDIO 43311 - 2º PISO
Os Intelectuais Brasileiros e as Interpretações do Brasil
- Marçal de Menezes Paredes - A intersecção portuguesa no regionalismo brasileiro: os casos do "gaúcho" e do "sertanejo";
- Danyllo Di Giorgio Martins da Mota - Da Maçaroca à Interpretação do Brasil: a relação de Monteiro Lobato com os jornais;
- Luciana Paiva Coronel - Literatura como fonte: a interpretação do Brasil contida na literatura de periferia dos anos 90

16/07 - Quarta-feira - Tarde (14h às 17h)MINI-AUDITÓRIO - PRÉDIO 43311 - 2º PISO
Os Intelectuais Brasileiros e as Interpretações do Brasil
- Éder Silveira - A polêmica Alencar-Nabuco e a crise da poética romântica

16/07 - Quarta-feira - Tarde (14h às 17h)SALA 204 - PRÉDIO 43324 - 2º PISO
Vestígios Impressos do Passado: objetivos e possibilidades de pesquisas com a fonte-jornal
- Cássia Daiane Macedo da Silveira As revistas literárias rio-grandenses do século XIX: o caso da Revista do Parthenon Litterario

17/07 - Quinta-feira - Tarde (14h às 18h)MINI-AUDITÓRIO - PRÉDIO 43311 - 2º PISO
Os Intelectuais Brasileiros e as Interpretações do Brasil
- Márcia Helena Saldanha Barbosa - Narrando os avessos: o Brasil na ficção de Guimarães Rosa e Dyonélio Machado;
- Christiane Marques Szesz - Os almanaques populares: leituras e apropriações em Ariano Suassuna

17/07 - Quinta-feira - Tarde (14h às 18h) SALA 209 - PRÉDIO 43324 - 2º PISO
Fronteiras Americanas: experiências e práticas de pesquisa
- Renata Dal Sasso Freitas - Paraísos Perdidos: uma análise dos romances "The Deerslayer" (1841) de James Fenimore Cooper e de "Iracema" (1865) de José de Alencar

17/07 - Quinta-feira - Tarde (14h às 18h) SALA 212 - PRÉDIO 43324 - 2º PISO
Intelectuais, Política e Imprensa: o pensamento autoritário no Brasil
Vanessa dos Santos Moura - A literatura gaúcha contesta o regime militar: uma análise interpretativa do romance "Os Tambores Silenciosos", de Josué Guimarães

18/07 - Sexta-feira - Tarde (14h às 16h)SALA 210 - PRÉDIO 43324 - 2º PISO
História e Fontes Religiosas: recortes, abordagens e formas de tratamento
- Marcelo Roberto da Silva Rios - A Utopia de Canudos

O olho de Camões

Luiz Vaz de Camões era caolho. As causas da perda do olho direito do poeta são muitas. Aquela mais citada diz respeito a um conflito militar no oriente.
No link abaixo, algumas outras hipóteses inusitadas que justificam o fato de como o poeta perdeu seu olho.

Para dar umas risadas!

CLIQUE AQUI!

QUANTO VALE OU É POR QUILO?

E aí, pessoal?!

Segue abaixo um link de vídeo no youtube para dar uma olhadinha. Trata-se de um pequeno trecho de "Quanto vale ou é por quilo", de Sérgio Bianchi, magnífico filme que explora as relações de poder que estabecem-se no Brasil contemporêneo através da problemática social e o avanço do terceiro setor (ONG'S e voluntariado).
Em jogos temporais muito bem articulados, o diretor traz referências documentais do passado do século XIX para ilustrar e comparar práticas sociais comuns da nossa sociedade, como nas relações entre senhor/escravo e patrão/empregado. Num dos momentos mais interessantes do filme, Biachi relê o clássico conto "Pai Contra Mãe", de Machado de Assis nos tempos atuais. Aqui, Cândido Neves vira Candinho, personagens que lidam com as mesmas angústias. É apenas um pequeno trecho, mas vale uma olhada - agora resta passar numa locadora e levar o filme para uma análise mais atenta.

CLIQUE AQUI PARA VER O TRECHO DO FILME!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

"Passagem do Ano"

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez, estás vivo,
e de copo na mão esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
Carlos Drummond de Andrade ( livro: A Rosa do Povo)

segunda-feira, 7 de julho de 2008

"Escravo Pancrácio" - crônica escrita por Machado de Assis, publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888 (livro "Bons Dias")


Bons dias!
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
- Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que...
- Oh! meu senhô! fico.
- ...Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
- Artura não qué dizê nada, não, senhô...
- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
- Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.
Boas noites.

(Texto extraído do livro: Assis, Machado de. Obra Completa, Vol III. 3ª edição. José Aguilar, Rio de Janeiro. 1973. p. 489 - 491)