segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Os devaneios literários selvagens de Thoreau

"Para ser poeta é preciso seduzir os ventos e as correntezas e fazê-los falar."
Henry David Thoreau

Em tempos nos quais se discutem incansavelmente questões vinculadas à ecologia e o papel da natureza na nossa vida, é preciso relembrar de Henry David Thoureau. Filósofo e ensaísta brilhante, Thoreau (1817-1862) buscou no selvagem, nos aspectos primitivos aos quais estamos ligados, a sua motivação para falar sobre o que é viver e ser Homem em uma sociedade em permanente progresso. Para fugir do urbano e das "mentiras" às quais estamos presos, o escritor resolveu refugiar-se em uma cabana às margens do lago Walden e entregou-se à contemplação da natureza em seu estado puro e bruto - elemento recorrente na sua pequena (e, não por isso, menos interessante) obra poética, que pode ser muito bem comparada a alguns dos melhores versos do genial poeta norte-amereinano Walt Whitman. Dessa experiência quase transcendente, em meio à relva e à beleza da solidão no contato com a natureza, surgiu o clássico "Walden, ou A Vida nos Bosques".
De alma renascentista, uma vez que era dotado dos mais diversos interesses, Thoreau - que nasceu e viveu nos Estados Unidos - escreveu tratados sociológicos e filosóficos; tinha inflexão naturalista e mexeu com a historiografia e a literatura, além de ter sido poeta. Na postura frente à sociedade e no seu comportamento como escritor contemplativo, o filósofo pregava a volta ao rústico, ao primitivo, à simplicidade e a beleza das coisas simples, além de defender a "desobediência civil" (título de um dos mais famosos artigos seus que, em tempo de eleições, também merece resgate) e, em uma de suas frases célebres, afirmou: "O melhor governo é aquele que menos governa (...) e quando estivermos preparados para isso, serei a favor de um governo que não governa". Seus textos inspiraram uma série de figuras importantes da história da humanidade (de Léon Tolstói a Gandhi e Martin Luther King), porém, hoje, é um pensador pouco lembrado.


Em um de seus belos textos, "Andar a pé" (ou "Caminhando", dependendo da tradução), Henry Thoreau discute, em determinado momento, também, a literatura e os aspectos que a circundam, a poesia e a fantasia, numa perspectiva bastante singular:


"(...) Em literatura, só o rústico nos atrai. Frouxidão é apenas outro nome para mansidão. É o pensamento incivilizado, livre e bruto em “Hamlet” e na “Ilíada”, em todas as Escrituras e Mitologias, não aprendidas nas escolas, que nos delicia. Assim como o pato selvagem é mais veloz e mais belo do que o pato doméstico, assim também é o pensamento rústico, o qual de permeio com o orvalho cadente, alça seu vôo por cima das cercas. Um livro verdadeiramente bom é algo tão natural e tão inesperada e inexplicavelmente belo e perfeito como uma flor silvestre descoberta nas pradarias do Oeste ou nas selvas de Leste. O gênio é uma luz que torna visíveis as trevas, como o resplendor do relâmpago que, talvez, despedace o próprio templo da sapiência — e não uma vela acesa na flama da raça, que empalidece ante a luz comum do dia.

A literatura inglesa, desde os dias dos menestréis aos poetas laquistas — Chaucer e Spenser e Milton e mesmo Shakespeare inclusive — , não respira atmosfera completamente pura e, neste sentido, tom rústico. É uma literatura civilizada e essencialmente mansa, refletindo Grécia e Roma. Sua rusticidade é uma mata verde, seu homem selvagem, um Robin Hood. Há abundância de amor genial da natureza, mas não tanto da verdadeira natureza. Suas crônicas dão-nos conta de quando seus animais selvagens, e não o homem selvagem, tornaram-se extintos.

A ciência de Humboldt é uma coisa, a poesia é outra coisa. O poeta de hoje, em que pesem todas as descobertas da ciência e os conhecimentos acumulados da humanidade não apresentam vantagem sobre Homero.

Onde se encontra a literatura que dá expressão à natureza? Seria bom poeta aquele que pudesse imprimir os ventos e os rios em sua obra, para falarem por ele; aquele que fixasse as palavras às suas significações primitivas, assim como os fazendeiros enterram estacas no oitão que a geada fendeu; aquele que deduzisse suas palavras, sempre que as empregasse, transplantava-as para suas páginas ainda com terra aderente às raízes; aquele cujas palavras fossem tão verdadeiras, frescas e naturais que pareceriam expandir-se como os botões de rosas à aproximação da Primavera, embora permanecessem meio sufocados entre duas folhas fétidas numa biblioteca — sim, florescer e ostentar fruto lá, segundo sua espécie, anualmente, para o leitor fiel, em harmonia com a natureza ambiente.

Não tenho conhecimento de qualquer poesia que possa citar e que expresse convenientemente esta ternura pelo rústico. Que se aproxime desse estilo, o que há de melhor é medíocre. Não sei onde encontrar em qualquer literatura, antiga ou moderna, qualquer notícia que me encha daquela natureza com a qual estou ambientado. Percebereis que exijo alguma coisa que nenhuma idade, de Augusto ou de Elizabeth, que nenhuma cultura, em suma, pode dar. A mitologia aproxima-se desse ideal mais do que qualquer coisa. Em que natureza muito mais fértil não tem suas raízes a mitologia grega do que a literatura inglesa! A mitologia é o fruto que o Velho Mundo produziu antes de se exaurir o seu solo, antes que a fantasia e a imaginação fossem afetadas pela praga; e que ainda produz, onde seu vigor primitivo não se abate. Todas as outras literaturas resistem, apenas, como os olmos, que sombreiam as nossas casas; mas isto é como a grande árvore-dragão das Antilhas, tão velha como a humanidade, e, verdade ou não, resistirá tempo igual, pois a decadência de outras literaturas prepara o solo sobre o qual ela florescerá.

(...)

Os mais rústicos sonhos dos homens selvagens não são os menos verdadeiros, posto que não se possam recomendar ao senso comum de hoje dos Ingleses e Americanos. Não é toda verdade que se recomenda ao senso comum. A natureza reserva um lugar para a vinha silvestre assim como para a couve. Algumas expressões da verdade são reminiscentes, outras meramente sensíveis, como a frase, e outras, proféticas. Algumas formas de doença podem até ser prenúncios de formas de saúde. O geólogo descobriu que as figuras de serpentes, grifos, dragões voadores e outros fantásticos embelezamentos de brasões têm seus protótipos nas formas de espécies fósseis que foram extintas antes da criação do homem e, daí, “indicam um conhecimento fraco e sombrio de um prévio estágio de existência orgânica”. Os Indus sonharam que a Terra repousava sobre um elefante, o elefante numa tartaruga e a tartaruga numa serpente: e, posto que seja o caso duma coincidência sem importância, não virá fora de propósito lembrar-se aqui que se descobriu recentemente na Ásia uma tartaruga fóssil, suficientemente grande para suportar um elefante. Confesso-me suspeito no que tange a estas fantasias do agreste, que transcendem a ordem do tempo e a do progresso. São o recreio mais sublime do intelecto. A perdiz ama a ervilha, exceto a que, com ela, vai para a panela.

Enfim, tudo que é bom é agreste e livre. Existe algo numa nota musical, seja produzido por um instrumento, ou pela voz humana — tomai para exemplo o som de uma corneta numa noite de Verão — que, por sua rusticidade, falando sem ironia, recorda-me os gritos emitidos pelas feras selvagens em suas florestas nativas. Pelo que infiro, trata-se de qualquer coisa da sua rusticidade. Dai-me para amigos e vizinhos homens selvagens, e não civilizados. A rusticidade do selvagem é apenas um pálido símbolo da terrível ferocidade que preside à sociabilidade dos homens e dos amantes. (...)"

THOREAU, Henry David, Andar a pé. (Tradução de Sarmento de Beires e José Duarte)

2 comentários:

Rafael disse...

Grande Educador e Escriba de cores e de sonhos Vinicius!

Diz Thoreau com todo seu amor: "Quero defender o homem como um habitante, uma parte e uma parcela da Natureza e não como membro da sociedade."

COM-Paz!
R. Grassi

Rafael disse...

Sobre a relva!

Confesso-te que ainda não sei como são essas folhas, na verdade pressuponho que nunca saberei, mas o que sei é que são mágicas como pingos de amor que inundam como um poema meus sonhos infantis.

COM-Paz!
R. Grassi