terça-feira, 31 de julho de 2012

Arte, lixo e grana: um diálogo subversivo.


Você já viu o filme Lixo Extraordinário? O imperdível documentário dirigido a seis mãos por Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley une vários discursos diferentes acerca da arte. Em comum, tais discursos guardam como característica primordial a capacidade de se articularem historicamente com as muitas transformações que a arte e a recepção artística tiveram ao longo de centenas de anos e, ainda, o caráter inconstante de suas perguntas que, ao invés de nos levarem a respostas concisas, só nos encaminham para novos questionamentos.

         Isto porque arte, conceitualmente falando, é expressão, é linguagem, e – como sabemos –, não há instrumento identitário mais poderoso do que a língua e a capacidade de articulação que o indivíduo tem dentro dela. Metaforicamente, o artista expressa-se sempre com uma espécie de “língua” própria, que denominamos estilo. Para o desenhista e para o pintor, o traço representa a sua “identidade visual”; para o autor literário, sua capacidade de articular temas e linguagem de uma forma que o identifique textualmente representa seu estilo como escritor – como a ironia machadiana ou a estrutura do texto de José Saramago, por exemplo. Trata-se de uma relação de “empoderamento”: ser fluente e ter acesso a essa “língua” é uma espécie de aquisição de “capital simbólico” (como diria o sociólogo Pierre Bourdieu), algo perceptível também em outras áreas da vida, como na relação de um indivíduo com o seu trabalho (na medida em que se reconhece como profissional de uma determinada área) ou, ainda, na forma como mantém seu círculo de relações. Na verdade, se bem observarmos, ao tematizar o trabalho dos catadores de lixo do aterro sanitário do bairro Jardim Gramacho, na cidade de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, Lixo Extraordinário contempla, igualmente, essas duas relações de empoderamento: o reconhecimento do próprio ser frente ao seu ofício (e de que maneira tal ocupação relaciona-se com os interesses de sua comunidade) e o poder de transformação que a arte tem para quem acessa ela, principalmente quando a mesma parece tão distante para certas pessoas.

Basicamente, Lixo Extraordinário trata dessas discussões ao lidar com dois temas, em princípio, opostos, que são, neste caso, complementares: lixo e arte, subvertendo o valor dado a tais conceitos na medida em que os inverte constantemente de posição até o ponto em que se confundem justamente por essa medida, o valor. Neste quesito, o critério de valor estético poderia ser uma temática a ser debatida mais profundamente no filme não fosse outra noção de valoração que se nele se sobrepõe: o valor financeiro. O documentário chega a esse ponto da discussão ao mostrar a jornada do mundialmente famoso artista plástico Vik Muniz em meio ao Jardim Gramacho, recrutando catadores para servirem de modelos e assistentes de um projeto que traz o lixo como matéria prima de um processo de releitura de obras clássicas da pintura; seu produto final, as fotografias das reproduções dos quadros originais (feitas em larga escala com materiais recicláveis extraídos do Lixão de Duque de Caxias), ao serem leiloados com toda a pompa dos grandes leilões de obras artísticas, tornam esses simples catadores reconhecedores de sua origem na medida em que também se reconhecem como artistas em potencial. Neste momento, essas duas formas de acúmulo de capital se encontram: o capital financeiro, tão importante para a associação de catadores do Jardim Gramacho, não se torna maior ou menor do que aquele denominado “simbólico”, mas sim equivalente – neste caso, essencial para indivíduos que precisam enriquecer, igualmente, sua autoestima.

No plano da arte propriamente dita, Vik Muniz e seu projeto parecem ser, neste processo registrado no documentário, catalisadores de inúmeras reflexões sobre o objeto artístico que surgem na tela. Em primeiro plano, a noção de valor estético, associada à confluência entre lixo e arte, parece ser a mais latente: o valor que se dá ao lixo e o valor que uma obra artística pode adquirir. Outra relação é com o processo de autoria: o autor do conceito estético é tão autor quanto aqueles que manipulam os materiais ou participam da obra de alguma forma? Em outro plano, no entanto, está a relação com a originalidade no específico processo de releitura ao qual se propõe o artista: o lixo como material para a reprodução de obras consolidadas no “cânone” das artes visuais permite sua aceitação e circulação irrestrita no meio artístico, nos grandes museus e galerias. Naturalmente que associado a isso está o nome de Vik, que tem seu talento reconhecido no mundo todo, todavia, seu trabalho (ou seu conceito) leva a uma questão fundamental no campo das arte contemporânea, qual seja a de que, muitas vezes, o que mais importa, atualmente, é a arte como processo, a submissão da forma frente à riqueza da função, ou melhor, da intenção. Logo, um retrato nunca é um mero retrato se, para pintar, o material utilizado é tão incomum quanto geleia ou pasta de amendoim (para citar alguns experimentos do próprio Vik). No caso de Lixo Extraordinário, o processo de composição das reproduções dos quadros interage com seus participantes, sábios conhecedores da matéria prima a ser utilizada (o lixo reciclável), que acabam sendo protagonistas de algo que, de fato, ajudaram a criar. Assim como na série Sugar Children, onde o artista foi para uma plantação de açúcar em St. Kitts para fotografar filhos de operários que lá trabalhavam, fazendo após as reproduções das fotos com açucar sobre papel preto, o conceito estético coloca-se em primeiro plano na medida em que há uma imbricação de temas e processos; contudo, o produto final é também resultado de um processo criativo, mesmo no caso das obras vistas em Lixo Extraordinário.
 
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Etimologicamente, a palavra arte, em uma das muitas acepções que teve ao longo da história, tem a ver com técnica; neste caso, o termo acabava designando o conjunto de regras capaz de dirigir qualquer atividade humana. Tanto como na relação com a beleza, percebe-se que há um pressuposto de interação objetiva com o espectador: técnica apurada resulta em beleza, tomando como parâmetro o que é “agradável aos olhos e ao espírito”. Contrariando essas duas ideias canônicas sobre o objeto artístico, as vanguardas europeias do final do século XIX (Impressionismo, Simbolismo) e início do século XX (Futurismo, Surrealismo e, principalmente, Dadaísmo) trouxeram uma grande contribuição para o campo da estética, qual seja a de que a arte também representa a desacomodação e o estranhamento; somada a isso está a reflexão sobre a arte – seus significados simbólicos e sua conceituação – a partir do próprio objeto artístico (processo este que podemos associar à ideia de metalinguagem). Com isso, até mesmo do ponto de vista material, a arte se modificou e, com o tempo, apenas ampliou o gesto provocativo de Duchamp ao colocar um urinol numa exposição e lançar o read made (o deslocamento conceitual de um objeto de seu contexto original, transformado em arte a partir de uma intencionalidade artística). Vik Muniz, por sua vez, está em uma outra “ponta” do processo, irrompendo a relação de submissão da arte contemporânea ao ideal dadaísta de chocar e provocar sempre, investindo em  processos artísticos originais, atrelados, também, à reprodução figurativa e uma percepção mais clara da mensagem. Vik, desta maneira, compõe a partir de processos híbridos - outra constante no mundo contemporâneo das artes.
Contudo, o que parece mais latente no trabalho de Muniz observado em Lixo Extraordinário se dá na relação do artista com o mercado, um tabu constante para os artistas em geral, que parecem, por um lado, ainda depender constantemente de práticas de mecenato para sobreviver e, por outro lado, negar a importância de se inserir num mercado consumidor (um comportamento que tem a ver, também, com o início das vanguardas e sua relação conflituosa ao longo do século XX com o fenômeno da cultura de massa). A postura subversiva de Muniz, neste sentido, está em dialogar naturalmente com essa questão, reconhecendo, também, que não bastaria apenas “invadir” e intervir no espaço daqueles indivíduos mimetizados em meio a toneladas de lixo e fedor de chorume; por reconhecimento e consideração, eles deveriam ser agentes da transformação do próprio objeto com o qual lidam, traduzido em arte; deveriam, da mesma maneira, perceber o quanto a arte transforma o ser na medida em que ele é participante ativo da mesma, quando ele é capaz de, primeiramente, ser “falante” dessa “língua” tão especial e, enfim, ser reconhecido por isso inclusive financeiramente, na medida em que circula num meio que parecia ser tão distante.
Fica a dica! Até porque, o lixo “está na moda” – e é bem melhor ver esta pérola de documentário do que a telenovela da Globo.

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