segunda-feira, 5 de abril de 2010

Como falar? Como escrever?

É muito comum os alunos iniciarem o ano letivo - mais precisamento os alunos de cursos preparatórios para o vestibular - um pouco ansiosos. A gramática, normalmente, assusta a todos e eles gritam, sempre que possível: "Não sei nada de português". Descontruir essa ideia é muito difícil, mas necessário. Felizmente, a noção acerca dos conteúdos da disciplina "português" tem mudado e, possivelmente, os alunos, daqui a pouco, saberão que nem sempre dominar nomenclaturas gramaticais é sinônimo de "boa escrita".
Desde de cedo, vamos à escola e nos entopem de regras - ao menos foi assim comigo até o Ensino Médio, quando uma professora passou a priorizar a escrita, o desenvolvimento de ideias e de argumentos, bem como a expressividade artística-literária. Impossível? Acho que não. Ao menos deslocando a "ordem" do ensino de português, podemos criar mudanças. Se nas duas primeiras semanas de aula ditarmos regras e mais regras, os alunos odiarão ler e escrever. Acredito muito no ensino da grmática apartir do texto, a chamada linguística textual. Assim, parece-me, o educando fica mais seguro e tem oportunidade de ler e de criar sentidos.
Pois bem, deixando meus "achismos" de lado, dou voz a quem. de fato, tem autorização para falar: Marcos Bagno. O linguísta tem uma coluna na revista Caros Amigos e disponibiliza os textos no seu site - vale a pena!
Aí vai uma boa leitura:

A MALDIÇÃO DA NORMA CULTA
Marcos Bagno - Agosto de 2008
[A norma curta] não passa de uma súmula grosseira e rasteira de preceitos normativos saídos, em geral, do purismo exacerbado que, infelizmente, se alastrou entre nós desde o século XIX. A nomra curta é a miséria da gramática" - Carlos Alberto Faraco

Impossível calcular o estrago que o termo norma culta vem causando nos meios educacionais e, em geral, na cultura brasileira. Enquanto ele não for definitivamente jogado no lixo e incinerado, vai ser difícil examinar as relações entre linguagem e sociedade sob uma ótica serena e bem fundamentada. Por quanto tempo ainda teremos de viver sob a maldição da norma culta?
Embora alguns lingüistas usem esse termo com outros sentidos, a retumbante maioria das pessoas se refere à norma culta como um modelo idealizado de língua "certa", "bonita" e "elegante", que elas mesmas não sabem dizer onde, quando nem por quem foi estabelecido, mas que, apesar disso, merece toda a reverência do mundo, como se fosse uma doutrina sagrada, ditada pelo próprio Deus a seus profetas. Numa época em que se questiona tudo, em que se protesta contra toda forma de discriminação, contra qualquer prescrição no que diz respeito às relações sexuais, às crenças religiosas, aos modos de se vestir, de viver, de comer, de criar os filhos etc., em que a palavra diversidade impera, assim como a exigência de que ela seja respeitada e valorizada, é espantoso que só o uso da língua permaneça sujeito a uma regulação restritiva e tacanha. O dogma da infalibilidade papal virou piada, mas quase ninguém zomba dos dogmas gramaticais (mais velhos que a religião cristã). Por que os rótulos de "certo" e "errado" são abandonados, e até ridicularizados, em outras esferas da vida social, mas permanecem vivos e ativos quando o assunto é língua? Por que ninguém se dá conta de que a nebulosa norma culta é um produto humano e, portanto, imperfeito, falho e suscetível de contestação e reformulação? Impera na cultura ocidental uma concepção de língua tosca e burra, fixada trezentos anos antes de Cristo. Impregnados dos preconceitos da época, os primeiros gramáticos repudiaram todo e qualquer uso de língua que não fosse, primeiro, escrito (a fala, para eles, era um caos completo) e, não bastasse, escrito por meia dúzia de "grandes autores", todos mortos. Essa doença torpe se propagou nos últimos dois milênios e meio, a ponto de se tornar invisível para quase todo mundo. É com base nesse critério estúpido - a língua escrita dos "clássicos" - que se fixou, nas diversas nações, o modelo de "língua certa" que, no Brasil, atende pelo nome infeliz de norma culta. No caso brasileiro, a coisa é ainda mais cruel porque, fruto de processo colonial, nosso padrão idiomático se inspira numa língua escrita do outro lado do Atlântico, em outro hemisfério, em meados do século XIX. Por isso, não podemos começar frase com pronome oblíquo, nem usar "ele" como objeto direto ("eu vi ele"), nem dizer "prefiro mais X do que Y", nem "o filme que eu gosto", embora tudo isso constitua a gramática de uma língua autônoma, o português brasileiro, com mais de 500 anos de idade e 200 milhões de falantes (a terceira mais falada no Ocidente)! Até quando, meu pai Oxóssi?

Um comentário:

Carolina. disse...

Adorei, Carol!
(Tenho acompanhado as postagens, todas ótimas, mas não comentando em função das correrias!)
=*