quarta-feira, 29 de julho de 2009

Chico é pop.





Cantor, compositor, dramaturgo, escritor, um pensador até... Certa vez uma amiga minha disse: "Chico Buarque é uma espécie de Aristóteles brasileiro". Brincadeiras hiperbólicas à parte, Buarque saltou do hall de grande gênio pós-Bossa Nova para se tornar esta que, hoje, seja talvez a maior referência intelectual do nosso país. E não é porque é cosmopolita na sua participação no meio artístico - até porque, musicalmente, Chico é um revisor da tradição, o extremo oposto de um Caetano Veloso, por exemplo, que se reinventa constantemente, sempre na busca pelo novo. Mas Chico é algo interessante de se analisar... Além de todas as suas atribuições e contribuições para a história cultural do Brasil recente ele é... Bonito (?!). Sim, é um galã para muitas, "o Felipe Dylon das quarentonas", como ironizou certa feita Juremir Machado da Silva.

Fato é que a passagem de Chico Buarque pela Festa Literária Internacional de Paraty justifica sua colocação no Olimpo das letras nacionais. Nessa cidade da literatura, ele é o rei! Sua presença é um evento! Numa era tão sem referências como a nossa, o exemplo de Buarque faz pensar como os mitos são criados em nossa sociedade: sua genialidade ultrapassa os limites da razão, pois consegue, mesmo numa tão recente e curta incursão pelo romance, criar obras magníficas, de notável apuro estético e narrativo, em que uma consegue reverter expectativas da anterior, promovendo algo sempre original (até mesmo se comparadas com seu papel na canção). E estamos falando do homem que compôs obras-primas irretocáveis como "Construção", "Folhetim", "Eu te amo" e tantas outras; que participou da renovação do teatro brasileiro com Gota D'água e Calabar e que, simplesmente, tornou-se uma referência de embate com a repressão durante a ditadura militar na luta pela liberdade de expressão. Com esse currículo, já temos a receita para se fazer um herói dentro da cultura. Mas o homem não cansa e dedica-se também à literatura, justamente em um gênero hoje pouco produzido, pelo esmero necessário à sua criação, e pouco lido, pelas inúmeras atrações que rivalizam com ele nesse espetáculo da modernidade: o romance. Nesse sentido, Chico reinventa sua carreira à sua maneira. E lá vão mais genialidades: Estorvo, Benjamin... E o cara ainda é best-seller (!).

O sucesso comercial de Chico Buarque, principalmente em seu último livro, Leite Derramado, obviamente se deve a um excelente movimento de promoção editorial, mas não há dúvida de seu talento. Só isso justifica a mobilização que ele produz num evento desse tipo: os ingressos para a mesa de discussão em que ele participaria esgotaram-se em poucas horas, um mês antes da FLIP iniciar. A mera ideia da presença do compositor causa histeria em fãs que, dadas as suas feições de mães e pais de família, parecem patéticos, mas a idolatria é como a fé, e esses são elementos absurdamente irracionais. Posso estar errado, mas acredito que Chico nunca foi tão unânime quanto hoje; seu sucesso nunca foi tão presente quanto hoje; talvez ele mesmo só esteja vendo seu sucesso comercial, realmente, hoje, justamente porque necessitamos de referências como ele, tão precisamente geniais, tão idôneas.

*

Na noite do dia 3 de Julho, temos um circo armado. Uma sala: lotada; um espaço para ver a tal mesa de debate no telão: lotado; o mediador da mesa avisa que os autores autografarão seus livros em seguida, em quatidade limitada: histeria, corre-corre... Uma fila de autógrafos cheia, lotada, antes mesmo de iniciarem-se os trabalhos. Analiso o contexto e penso: "Milton Hatoum... Ele é o outro cara da mesa do Chico... Apenas isso: aqui ele é o outro cara. Será que ele se dá conta disso? Putz, ele escreveu Dois Irmãos, uma obra-prima... Será que alguém está aqui para ouvir ele? Será que alguém vai autografar algum livro seu também...?".

Trata-se de um testemunho: testemunhamos a afirmação de um ídolo. Tão grande quanto Michael Jackson, tão distinto e reverenciado quanto Madonna, tão permanente quanto Beatles, U2 e Rolling Stones. Lá, em Paraty, na terra dos livros, Chico Buarque é pop - é o rei do pop! (Aposto que se ele andasse caminhando pelo calçadão de Copacabana nem seria notado.)

Ah! Quanto aos autógrafos, não fiquei para ver, mas parece que Buarque só autografou 150 livros, a histeria causada em torno de sua presença atrasou o show de Francis Hime & Olivia Hime, o que me deixou um pouco irritado. Espero que Milton Hatoum tenha autografado algum livro, mesmo que tenha sido uma dedicatória em algum exemplar de Leite Derramado - toda essa catarse social tornou o cara um pouco mais simpático para mim.

terça-feira, 21 de julho de 2009

"É uma festa, não um evento acadêmico."

A frase acima define muito bem a diferença que se coloca entre a FLIP e demais eventos que buscam essa necessidade de colocar em pauta a literatura. Trata-se, literalmente, de uma festa, como o próprio nome que ela leva já diz (Festa Literária Internacional de Paraty). Mas até que ponto uma festa pode contribuir para uma discussão literária? Essa é a grande questão, pois, afinal, não existe forma melhor ou pior de discutir a literatura e, o aspecto mais importante, discutir o corpus literário, não é, afinal, mais ou menos importante do que, efetivamente, ler.

As palavras do conferencista de abertura do evento Davi Arriguci Jr. ilustraram muito bem do que se trata a FLIP e, logo no primeiro dia, tornou-se muito nítido o que tínhamos ali: na principal praça da cidade, uma biblioteca infantil gabaritada, livros pendurados nas árvores, autores famosos circulando pelas ruas, cordelistas recitando seus versos, uma infinidade de palestras gratuitas acontecendo ininterruptamente, projetos dos mais variados divulgando seus trabalhos em vários estandes... Enfim, o que diz Arriguci: "um evento que valoriza a necessidade da leitura". Parece uma frase simples, mas perceba a sutileza: o crítico e professor, em suas palavras (e como dito posteriormente), coloca que se trata de uma necessidade que se sobrepõe, inclusive, ao ato de escrever, é algo muito maior do que essa ligação intríseca entre escrita/leitura; ler é um ato solitário, sim, pois nos vinculamos intimamente com um livro, mas, da mesma forma, ler é um ato isolado, que fala por si só e que deve ser valorizado no e pelo momento da leitura. Discutir um livro, um autor e sua obra é algo fundamental, mas tornar o ato de ler algo tão natural quanto assistir TV ou ouvir música (também um lazer, portanto) é uma missão da FLIP e que deve não estar tão engessado em objetivos, expectativas ou cotejos com a teroria e a crítica.

*

Para aquele que chega em Paraty, fica nítido que tal evento está no lugar certo: uma cidade que respira o século XVIII em suas construções, em que seu centro histórico compreende quase que todo o seu território, os livros descansam e a leitura está permanentemente viva entre as pessoas como um ideal perdido no tempo. Claro, há elementos de profunda relação mercadológica, uma vez que temos as falas dos autores "popstars" que, digamos, "puxam" o público para a cidade e promovem o turismo realmente - o turista que paga caro, que consome não só cultura -, mas, ao contrário das minhas próprias expectativas, não é um evento tão elitizado como esperava (o que por muitas vezes plantou uma séria dúvida sobre a validade de investir no mesmo); o espaço infanto-juvenil é extremamente valorizado, uma alegria só ver as escolas, as crianças e os adolescentes envolvidos em atividades simples, mas que fazem toda a diferença e, principalmente, um evento democrático por equilibrar a necessidade de custeá-lo (refiro-me às palestras pagas em que, não sendo estudante, fica realmente caro ir à FLIP), associado também a uma programação aberta a todos (e aqui tenho a convicção de afirmar que se trata do "grosso" do evento).

Para quem é de Porto Alegre, há uma relação muito próxima com a forma como a Feira do Livro estruturou-se nos últimos anos, abrindo espaço para palestras e oficinas, por exemplo - exceto pelo fato de que a venda de livros não é o foco em Paraty. Essa proximidade dá-se, fundamentalmente, por essa relação que há com a euforia pelo livro, uma euforia perdida com o advento de tecnologias e chamarizes que diminuíram o público leitor nessa nova sociedade pós-moderna. Neste sentido, é nítido o esforço da Festa Literária de Paraty em agradar as crianças (e agora com foco também nos adolescentes), pois nelas reside a esperança de termos leitores que manterão aceso o gosto pela literatura em todas as suas formas (na oralidade também!) e, sejamos honestos, é isso realmente o que importa, afinal de contas é uma festa, e ninguém sabe fazer festa melhor que eles.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Festa Literária Internacional de Paraty

Então, pessoas...

De volta à capital gaúcha, após a FLIP 2009 em Paraty! Por ora só podemos dizer que há muito a ser contado. A ideia é, gradualmente, atualizar o Devaneio Literário com alguns dos principais momentos que presenciamos neste evento incrível.

Em meio a histórias em quadrinhos, furor por Chico Buarque, palestra com o Marcelo Tás (do CQC) e até aparição na TV, muitas coisas legais serão aqui relatadas.

Aguardem!




quarta-feira, 17 de junho de 2009

Depoimento sobre leitura - Felipe Guerreiro Dias da Silva

Mais uma vez abrimos espaço no Devaneio Literário para os nossos pupilos. O depoimento abaixo foi escrito por Felipe Guerreiro Dias da Silva, estudante do terceiro ano do Ensino Médio da Escola Martinho Lutero, de Cachoeirinha, e é uma breve amostra de que, mesmo com o tédio que nos circunda com relação a algumas obrigações escolares, a leitura é um prazer que não pode ser deixado de lado - é só achar algo que promova identificação. Publicado no jornal da cidade, o pequeno texto é mais um motivo de orgulho e satisfação nossa.

*

Sempre fui muito agitado e bagunceiro, não queria parar nem para dormir, e a solução encontrada pelos meus pais foi me presentear com um livro. Mal sabiam eles o que acabavam de criar. Nos tempos em que o colégio era menos cansativo, acabei por desenvolver o hábito de devorar um livro inteiro em uma noite, isso quando não começava a ler o segundo.

Meus primeiros favoritos foram "Harry Potter" e "Artemis Fowl". Hoje em dia, minha coleção mais amada é "Discworld", de Terry Pratchett, uma comédia medieval fantástica, e também os contos de H. P. Lovecraft, mestre do gênero terror e suspense.

Aconselho para o pessoal mais jovem, que não gosta de ler, que comece com algo como "Sandman", de Neil Gaiman - que conta a história de Sonho, governante de Sonhar, e de como ele interage com os homens, o Universo e suas criaturas - ou com alguns mangás (histórias em quadrinhos japonesas)

Felipe Guerreiro Dias da Silva

, p. 08.


* Complementando o comentário de Felipe, uma boa amostra da obra do quadrinista e romancista Neil Gaiman está na série em quadrinhos "Morte: o grande momento da vida", que é recuperada em "Sandman". Recentemente, algumas de suas histórias foram adaptadas para o cinema (Stardust, com Michele Pfeifer e Robert DeNiro - sem muito êxito - e Coraline e o Mundo Secreto, animação de Henry Selick - esta sim, uma obra infanto-juvenil que respeita as principais marcas do genial autor original).

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Que livro é você?

Dica do blog da nossa amiga Carolina Duarte, o LUSCA-FUSCA: no site do projeto "Educar para crescer", do grupo Abril, há um teste daqueles bem divertidos, que podemos fazer justamente naquelas horas em que não há mais absolutamente nada que mereça a nossa atenção. Responda 10 questões simples sobre sobre sociedade, a sua personalidade e relações humanas e descubra que obra você seria se fosse um livro! Eu fiz - veja no que deu (um clássico!):

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Ok, você não é exatamente uma pessoa fácil e otimista, mas muita gente te adora. É possível, aliás, que você marque a história de sua família, de seu bairro... Quem sabe até de sua cidade? Afinal, você consegue ser inteligente e perspicaz, mas nem por isso virar as costas para a popularidade - um talento raro. Claro que esse cinismo ácido que você teima em destilar afasta alguns, e os mais jovens nem sempre conseguem entendê-lo. Mas nada que seu carisma natural e dinamismo não compensem.

- Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) é considerado o divisor de águas entre os movimentos Romântico e Realista. Uma das expressões da genialidade de Machado de Assis (e de sua refinada ironia), há décadas tem sido leitura obrigatória na maior parte das escolas e costuma agradar aos alunos adolescentes. Já inspirou filme e peças de teatro. É, portanto, um caso de clássico capaz de conquistar leitores variados. Proezas de Machado.


*

É, como dá pra ver ainda sobra espaço até para dicas no maior estilo "horóscopo". Aliás, seria bem interessante realmente se, ao invés de sermos guiados pelos astros e por signos do zodíaco, tivéssesmos nosso destino traçado de acordo com referências literárias. Coitado de quem fosse um "Dom Casmurro"...


CLIQUE AQUI E FAÇA O SEU TESTE!

terça-feira, 12 de maio de 2009

"Trote nas universidades, como usá-lo?", de Bruna Madsen Carvalho

Durante o mês de Abril estudantes de diversas cidades do Rio Grande do Sul mobilizaram-se em torno do Concurso RedAÇÃO ZH, um concurso cultural promovido em parceria entre o jornal Zero Hora e o curso pré-vestibular Unificado. Como o próprio nome coloca, trata-se de uma oportunidade de exercitar a prática da escrita de texto dissertativo voltada ao vestibular. Neste ano o tema foi "O Trote nas Universidades" e 300 estudantes foram selecionados para a segunda etapa que se realizará no próximo Sábado, 16 de Maio, que trará uma proposta de produção textual totalmente nova. Deixamos aqui, então, a discussão literária (ou sobre ensino & literatura tão pontuada ultimamente neste blog) para divulgar a todos um desses textos selecionados: trata-se de uma estudante da rede privada da grande Porto Alegre, Bruna Madsen Carvalho, aluna do segundo ano do Ensino Médio da Escola Martinho Lutero, de Cachoeirinha - que eu, Vinicius Rodrigues, colaborador do Devaneio Literário (e professor da autora), trago aqui como forma de parabenizá-la imensamente por esta conquista. Um texto enxuto e objetivo que traduz uma necessidade de compreender algo que poderia ser tão distante de uma estudante como ela, mas que é passível de reflexão e tentativa de entendimento. Desejemos sorte à jovem nesta segunda etapa que virá!

*

Há alguns meses atrás (mais especificamente em Fevereiro de 2009), aconteceram vários trotes maldosos na Universidade Federal de São Paulo, onde uma caloura grávida acabou sendo ferida por uma veterana de Pedagogia que usou creolina no trote; houve também outro caso, no qual um calouro foi submetido a beber álcool até desmaiar para que outros se aproveitassem da situação para bater no mesmo.
Eu, particularmente, não sou contra os trotes, sabendo usá-los com sabedoria, criatividade e sem ter intenção de machucar, tudo se torna fácil e mais divertido.
As perguntas são: para que humilhar, pisar, debochar dos calouros? O que leva os veteranos a fazer isso? Às vezes as influências de fora mexem com as nossas cabeças, temos que saber dividir o errado do certo. Machucar nossos colegas, que no futuro poderão ser nossos amigos... Não faz sentido!
Com relação ao trote solidário, sou totalmente a favor. Ao invés de nos submetermos a humilhações lastimáveis, porque não ajudar alguém que realmente precise? Pedir dinheiro no semáforo pode não ser tão humilhante se for para realmente ajudar quem precisa.
O trote solidário poderia ajudar várias instituições de caridade, assim fazendo com que muitos que estão tristes voltem a sorrir. Passar um dia na semana, durante um mês, com alguém que precisa de carinho deixaria todos muito mais satisfeitos. Essas e outras atitudes que realmente valem a pena deixariam os envolvidos muito mais felizes.

Bruna Madsen Carvalho

domingo, 3 de maio de 2009

A pauta do mês!

Já que a discussão em pauta é educação, tanto em nível mais genérico quanto em seu ambiente mais específico (diretamente ligada ao ensino vinculado à língua e à literatura), que tal refletir mais um pouco?

Nas últimas duas postagens, discutiu-se muito o papel do educador. Propomos, então, continuar esse debate ainda a partir do cinema e pensarmos um pouco mais sobre o papel do professor e como sua imagem é construída na sétima arte. E já que o devaneio, aqui, é, a priori, literário, vamos então dar uma breve olhada em alguns exemplos que sugerem o primordial lugar da linguagem e do texto no ensino em abordagens que, infelizmente, não refletem a crueza e o realismo de Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, mas que, por outro lado, mostram-se também, ao seu modo, pertinentes para uma possível reflexão, tanto para educadores quanto para alunos, ainda que lidem com personagens pasteurizados em visões, muitas vezes, demasiadamente edificantes.

Vão aí alguns exemplos e fica o tema de casa: assistam!

- Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir

Um clássico moderno. Quem não se lembra do “captain, my captain” dos versos do poeta norte-americano Walt Whitman, tantas vezes referido nesta obra, é porque nunca entrou em contato com o Prof. Keating, brilhantemente interpretado por Robin Willians no seu, talvez, melhor e mais sereno momento no cinema. Todo professor de Literatura gostaria de ser John Keating. Trata-se de uma obra que se pauta pelo papel da transgressão sadia, da busca pelo autoconhecimento, da necessidade da mudança de perspectiva que deve motivar qualquer jovem, um recado também àqueles que desejam promover uma educação que realmente “toque” seus alunos. Mais do que um filme que somente trata do ofício do professor, Sociedade dos Poetas Mortos contempla, também, a busca por fazer a diferença e acreditar nas suas próprias convicções – o que pode ser facilmente piegas, mas que, na verdade, ganha muita força na direção segura e sem exageros do grande Peter Weir (diretor de obras fantásticas, como O show de Truman, o show da vida, Gallipoli e A Testemunha).


- Escritores da Liberdade, de Richard LaGravenese

Baseado numa história real, Escritores da Liberdade lida com o velho clichê “professor-inexperiente-cheio-de-boas-intenções chega a uma escola de periferia para trazer a paixão pelo saber e entra em choque com uma realidade que não conhece”. A partir dessa premissa, desenrola-se uma trama que compreende outros velhos dramas dos filmes “de escola”, como a descoberta, as dificuldades de desvinculação do mestre para com seus discípulos e os reflexos dessa experiência na vida pessoal de ambos os envolvidos. O que há de realmente interessante nessa obra, além da ótima performance de Hilary Swank como a professora novata, está nas abordagens desenvolvidas pela educadora para tentar acessar a realidade de seus alunos que, por mais que estejam ligados a universos que transpiram a marginalidade e a miséria, podem muito bem refletir-se no (des)interesse de quaisquer alunos, de quaisquer esferas sociais, bem como na (des)consideração dos educandos para com aqueles mestres que só desejam fazer o melhor trabalho possível. Ambos os aspectos são tratados de maneira bastante tocante no filme e são discutidos a partir de uma palavra que deve nutrir as práticas educacionais, elemento esse tantas vezes negado pelos membros das comunidades escolares: o diálogo.
Mais alguma dica? Lembrou de algum filme deste quase subgênero (o “filme de escola”) que lide com professores da área de língua & literatura? Fora esses, lembra de algum que tenha marcado você? Enquanto isso, ficam as sugestões do Devaneio Literário!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Entre os Muros da Reflexão

Um minuto após os créditos iniciarem e as luzes do cinema surgirem, ouço “Que falação. Que filme mais chato!”. A frase foi enunciada por uma mulher, não sei de que idade, acerca do filme Entre os Muros da Escola. Antes de explicar o porquê da minha decepção, apresento a narrativa cinematográfica: produção francesa, inspirada em um livro de relatos, no qual François Bégaudeau, professor de francês, narra algumas de suas experiências profissionais.
Desde a estréia do filme, a crítica e os blogueiros têm indicado como principais êxitos da produção o seu hibridismo ficção-documentário e seu recorte social, colocando em foco a diversidade linguística e étnica da França. Essas são percepções essenciais e, de fato, traduzem muito da qualidade do filme.
Entretanto, ainda não tive oportunidade de ler alguma reflexão acerca do universo educacional construído na tela. A realidade apresentada é francesa, mas pode ser transposta, perece-me, a diversas salas de aula e escolas. Ao assistirmos ao filme, um verdadeiro diário escolar é construído, evidenciando a relação professor-aluno.
E se a recepção é importante, defino a minha: um verdadeiro “soco no estômago”. Há inúmeros filmes que colocam a docência como protagonista, desfilando, assim, personagens-professores que subvertem a ordem caótica de seus empregos, conquistando alunos e modificando realidades, imersos em determinação e criatividade. Na produção Entre os Muros da Escola, por sua vez, temos a oportunidade de conhecer um professor mais verossímil.
O educador de língua, no caso a francesa, não é um herói e não se contrói um herói para nenhum dos seus alunos. A relação retratada é cotidiana, sem exaltações. O professor apresentado parece dividir-se entre uma educação formal (voltada à nomenclaturas) e um educar que prioriza a valorização dos saberes dos alunos. Essa personagem-professor é verossímil porque erra.
Em meio ao turbilhão da sala de aula, onde vozes entrecruzam-se (e não esqueçamos que, no filme, não há trilha sonora), papéis permanecem em branco e alunos parecem simplesmente não conseguir alcançar a concentração, o professor, em um momento de descontrole, diz palavras ofensivas a duas alunas. A confusão instala-se. O desenlace, mais uma vez, não é heróico: temos um professor que não consegue pedir desculpas.
O filme é interessante porque oberva o universo escolar e suas limitações. Sabe-se que a educação possui inumeráveis problemas e tornou-se lugar-comum mencionar essa situação como um dos entraves ao desenvolvimento do País. No entanto, basta um filme reflexivo como Entre os Muros da Escola desfilar nas telas para comprovarmos que, na verdade, as pessoas não se preocupam com a educação. Não querem essa “falação”; querem, apenas, soluções. Como chegar a elas sem reflexão?
O assunto está em pauta e não interessa apenas aos profissionais da educação. Teoricamente, todos passamos pela escola. Se um filme como esse não conseguir suscitar reflexões, concluirei que muitas pessoas desejam, apenas, notícias sobre a educação – quantos professores e professoras sofreram agressões e em quais lugares. O x da educação é mais complicado do que se imagina e, infelizmente, há quem prefira deixar os problemas da escola entre seus muros.

------------------------------
Fica a dica: assistam ao filme!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Dilemas em ensino de Literatura

Ensinar literatura é ensinar a ler (ampliando a noção de leitura)? Ensinar literatura é destacar o papel de um autor no contexto no qual ele está inserido e, portanto, sua relevância para a Cultura? O papel do ensino de literatura atravessa estas duas questões quando reconhecemos que é fundamental que saibamos provocar a sensibilidade artística de um educando; quando também revelamos a este aluno a forma literária como uma manifestação de arte que equilibra a abstração com a objetividade, o entretenimento com a reflexão; e vemos o quanto também é necessário trabalhar autores que revelem sua importância na formação identitária de um povo, uma vez que são também representantes da tradição. Mas sensibilidade não é só exercitar a capacidade crítica ou a apreciação do objeto artístico. Bem como não só de autores e leituras canônicas a prática do ensino de literatura deve estar ligada.
O Brasil está repleto de diversos exemplos que justificam que as nossas letras podem se aproximar muito de universos mais objetivos e concretos para aquele que lê, tanto na narrativa quanto na lírica. Temos aí Rubem Fonseca e Vinicius de Moraes, por exemplo. Ensina-se literatura para valorizar a importância que tem o ato da leitura e da escrita criativa, inventiva, que modifica aquele que lê, que transforma, apreende o seu entorno e devolve-o filtrado pela beleza do verso, das belas palavras, das palavras certas nos lugares certos. Ensina-se literatura para que tantos representantes de nossa cultura mantenham-se vivos na memória pela sua importância histórica, pelo valor que cumpriram ou cumprem como formadores de opinião, fomentadores da reflexão, enfim, sua importância na sociedade. Trabalha-se arduamente sobre a obra literária para que se observe o quanto é possível nos conhecermos melhor, pois é quando vemos toda a gama de sensações impressa por um autor para falar de si e de suas sensações, que vemos o quanto somos complexos e nada indiferentes, ainda que tentemos. Para tanto, é necessária uma aproximação do leitor com a obra literária – a tarefa mais difícil do professor de Literatura do Ensino Médio. E, muitas vezes, dentro de uma sala de aula, nossas convicções (decorrentes de preparação prévia, coleta de material, etc.) são confrontadas com uma realidade que não dá mais tanto valor aos livros e à arte.
Propomos esta reflexão frente, também, a uma crônica de Martha Medeiros que muito sintetiza aquilo que deveríamos pensar sobre o que é refletir sobre a leitura e a obra artística literária, principalmente na sala de aula. E convidamos todos a participarem dessa discussão!

“Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: não façam ‘literatice’. O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra.”
Nelson Rodrigues

*

"Aula de Literatura", Martha Medeiros

Todo escritor que tenha sido entrevistado meia dúzia de vezes já passou pela indefectível pergunta: os professores devem obrigar seus alunos a lerem determinados livros? Já pensei mil vezes nesta questão. Quando estudante, eu era rata de biblioteca, mas confesso que me aborrecia quando o tema de casa era ler um livro que não estava nos meus planos. Tinha de tudo nesta recusa: um pouco de rebeldia, um pouco de preguiça e muito de ignorância. Afinal, se lemos livros de álgebra, biologia e história natural sem achar que o professor está sendo autoritário, por que um Guimarães Rosa ou um Machado de Assis provocam tanta polêmica?

Porque o livro de ficção está associado à arte, e arte é escolha. Não recebemos aulas sobre Fellini ou Hitchock na escola. Não aprendemos nada sobre Beethoven ou Beatles no colégio. A obra de Matisse e Renoir não cai nas provas. Por que só a literatura está no currículo?

Talvez porque a literatura continue sendo fundamental para a formação do indivíduo. Música, cinema, dança, pintura e outros tipos de manifestações artísticas acabam sendo, injustamente, designadas de “conhecimento geral”. Já a literatura está além do prazer. Ela nos ensina, antes de mais nada, a escrever, e isso já bastaria para colocar qualquer livro como complemento indispensável da cartilha. Além disso, os livros ensinam a sonhar, a olhar para dentro, a reconhecer sentimentos, a assimilar culturas. Ensinam geografia, história, português. Ajudam a formar o caráter e preparam para a vida.

Não é na escola que se aprende a ter amor pelos livros. É em casa, convivendo com eles desde criança, seguindo o exemplo de nossos pais. Mas a escola pode e deve incentivar o hábito, não porque cai no vestibular, mas porque a literatura é a base do ensino. É lendo livros de Direito Penal que serão formados os futuros criminalistas, é lendo livros de Odontologia que se aperfeiçoarão os dentistas de amanhã, é pelos livros didáticos que começam a se formar jornalistas, professores, cientistas, arquitetos, pedagogos e demais profissionais deste país.

Muito bem, mas por que José de Alencar e não Maria Mariana? É claro que o adolescente tem o direito de fazer suas próprias escolhas, e há boa literatura para todas as idades. Nada contra os novos autores, tão jovens quanto seus leitores, que falam a mesma língua e tratam das mesmas angústias. Mas isso não significa que Josué Guimarães ou um Érico Veríssimo também não possam encantar os menores de 18 anos. O importante é abrir o leque de opções, apresentar aos estudantes todo tipo de literatura, de preferência a de melhor qualidade, porque só conhecendo diversos autores e estilos é que ele poderá, mais tarde, selecionar os seus preferidos.

Quando eu freqüentava as aulas de matemática, já intuía que os logaritmos e as equações fracionárias não me fariam falta no futuro, mas o professor não podia adivinhar qual o caminho que eu iria seguir, se o das ciências humanas ou exatas, e por isso tinha a obrigação de me ensinar aquilo que poderia vir a ser útil em minha vida, deixando para mim a responsabilidade de abandonar estas lições em algum canto do cérebro, caso não precisasse mais delas. O que os professores de literatura querem, quando exigem que seus alunos leiam os clássicos da literatura brasileira e universal, é estimular a discussão de idéias e ajudá-los a compreender melhor o mundo em que vivem. Que cumpra-se o currículo. Se alguém achar chato, terá a vida pela frente para ler apenas os neurolingüístas, peregrinos, bruxas e outras maravilhas da atualidade.

In.: Top Less. Porto Alegre: LP&M, 2002, p. 86.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

"O sem-vergonhista", de Cláudia Laitano

Dizem que em Paris até o bilheteiro do metrô sabe quem é Tartufo – personagem criado por Molière muito antes de as cabeças rolarem durante a Revolução Francesa. Mesmo quem nunca assistiu a uma encenação da peça ou teve a oportunidade de ler o texto original da comédia editado em livro sabe do que estão falando quando, em uma conversa, alguém compara uma personalidade qualquer dos dias de hoje a um dos mais célebres pilantras da literatura francesa. Esse cultivado bilheteiro de metrô, mesmo simbólico ou talvez já aposentado e substituído no emprego por um jovem descendente de imigrantes, serve para ilustrar a força da cultura letrada francesa – capaz de transformar um personagem da ficção em patrimônio nacional, quase tão assimilado ao cotidiano das pessoas comuns quanto a baguete e o vinho tinto.

No Brasil, personagens de ficção integrados ao imaginário nacional são tão raros quanto metrôs. Emília, Gabriela, Escrava Isaura, e mais recentemente Capitu, todas contaram com o apoio da TV para ampliar sua restrita fama literária. Capitão Rodrigo ficou conhecido no resto do Brasil graças aos bigodes de Tarcísio Meira. Dona Flor tem o rosto, e as outras partes, de Sônia Braga.

O único personagem literário que realmente ficou famoso no Brasil, mesmo antes do cinema e da televisão, talvez seja Jeca Tatu, criado por Monteiro Lobato no começo do século 20 para esculhambar com o caipira idealizado da literatura romântica do século anterior: “Este funesto parasita da terra é o caboclo, espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização...”. A repercussão e a polêmica em torno de Jeca Tatu foram imensas, e Monteiro Lobato, em meio a uma grande campanha de saneamento, acabou maneirando um pouco nas críticas, atribuindo boa parte das mazelas de Jeca a falhas da saúde pública: “Eu ignorava que eras assim, meu caro Jeca, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas todo um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte”. Mazzaropi emprestou seu rosto para o caipira mais famoso do Brasil em filmes como Jeca Tatu (1959) e A Tristeza do Jeca (1961), mas o personagem já era famoso antes dele e ainda hoje faz parte do vocabulário popular (“jeca” e “jeca-tatu” são termos dicionarizados).

Do outro extremo da pirâmide social brasileira, lá onde “as doenças tremendas” não amolecem a ambição, vem outro personagem que entrou para o imaginário nacional tão naturalmente quanto o Jeca Tatu. Odorico Paraguaçu era o personagem principal de uma peça de Dias Gomes escrita em 1962 e levada ao palco pela primeira vez em 1969. A fama do personagem, no entanto, é devida à novela O Bem-Amado (1972) e ao talento do ator Paulo Gracindo para dar vida a expressões como “talqualmente”, “sem-vergonhista”, “inescrupulento” e ao clássico “vamos colocar de lado os entretantos e partir direto para os finalmentes”.

Pois esse personagem que também merecia verbete em dicionário está prestes a ressuscitar pela segunda vez (a primeira foi em um seriado nos anos 80), em um filme com Marco Nanini no papel principal e estreia prevista para setembro. Quarenta anos depois de sua estreia no palco, o personagem não parece ter perdido sua atualidade. Com sua deslavada falta de caratismo, Odorico virou o símbolo de um tipo de político que, como os habitantes de Sucupira, simplesmente se recusam a morrer.

Extraído de Zero Hora, 14 de Fevereiro de 2009, página 3.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Tempo de mar... E de poesia.

Como no amor,
morre no mar
quem sabe nadar.

Marlon de Almeida

O tórrido calor da cidade grande nos faz por vezes esquecer o poder inspirador da brisa marítima e do descanso que nos proporciona o ambiente litorâneo. Ou, pelo contrário, ao invés de nos concentrarmos excessivamente no desconforto proporcionado por essas monstruosas temperaturas na metópole, ficamos, na verdade, descontroladamente atraídos por uma ida à praia para descansar. Uma boa oportunidade de relaxar nesses dias quentes, na cidade, no litoral, ou seja lá onde for, é ler um bom livro, e folhar as páginas e os poemas de "Prosa do Mar", de Marlon de Almeida, nos transporta diretamente para esse recolhimento das boas praias e do universo mítico dos pescadores mais tradicionais.
Há um aroma delicioso de maresia na leitura dos poemas de Marlon, que atinge uma maturidade literária impressionante com este livro, lançado em Dezembro último pela editora 7 Letras, que segue os passos de uma obra que já vem sendo sedimentada desde meados dos anos 90. Se em "Malabares, ou O Clube dos Incomparáveis" o autor demonstrava uma total liberdade ao circular pelos ambientes urbanos mais prosaicos, aqui, neste novo momento literário, o mar e seus elementos são um desvio para outro universo ainda mais voltado à observação atenta das coisas simples, por sua vez recheadas de poesia.

"Mestre José bebe cachaça no bar:

Nunca mais vou amar.
Nunca mais vou a mar."

Marlon parece travestir-se de pescador, de "homem do mar"; sente suas dores, seus amores, mas é, fundamentalmente, um observador deste meio, de aguçadíssima sensibilidade; alguém que quer aprender com as ondas e um ritmo praieiro bem diferente do qual estamos acostumados a fazer referência: aqui há a tranqüilidade de um universo quase rural, onde tal bucolismo reflete-se em um epicurismo marinho, cheio de alegorias que, de certa forma, só terão seu ritmo modificado pela incursão na obra, por parte de seu autor, de um cordel, estilo lírico muito estudado pelo escritor durante sua carreira acadêmica e no qual tem muito o que revelar ainda.

"No tempo de antes,
sem redume ou tarrafa,
pescador desentocava cardume de olhos,
matava tainha de mão
e aguda taquara.

No tempo de não hoje,
aumentou-se o recurso da pesca,
minguou-se o pescado:

o mar em si mesmo ancorado,
como sangue morrente amanhã."


Para mim, que tive a oportunidade de ser aluno de Marlon de Almeida na adolescência – fã confesso de “Malabares” - , é uma grata surpresa poder contar com sua poesia-prosa que indico aqui sem receios de estar falando de alguém que conheço, pois seu talento está muito acima disso. Trata-se de uma ótima oportunidade para conhecer um dos grandes poetas gaúchos em, talvez, seu melhor momento, sua melhor forma, e deixar-se levar pelo ritmo da calmaria marítima de Marlon de Almeida e de sua prosa que, na beleza do mar, vira poesia, de versos com sons de ondas e gaivotas na beira da praia.


*Para adquirir "Prosa do Mar", é possível comprá-lo, em Porto Alegre, nas livrarias Palavraria (Vasco da Gama, 165) e Bamboletras (Lima e Silva, 776, loja 03) ou pelo site da editora 7 Letras (www.7letras.com.br).


sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

"Revolta no Inferno", de Luis Fernando Veríssimo


Todo fim de ano o Diabo recebe um pequeno grupo para jantar no que chama de sua anticobertura, um duplex no último subsolo do Inferno, escolhendo entre as almas condenadas as mais interessantes e de melhor papo. Os pratos são sempre grelhados e o vinho é de produção local, marca Diabo, mas o principal é que todos se divertem, falando mal de Deus e todo mundo. Mas, ultimamente, a questão de quem merece e quem não merece estar no Inferno vem sendo muito discutida nos jantares, e as queixas dos que se acham injustiçados por estarem lá se multiplicam. O Diabo tenta cortar os lamurientos da sua lista de convidados, mas não pode prescindir da presença de Oscar Wilde, um dos seus comensais favoritos, apesar das suas constantes críticas à comida, à companhia e à ausência de ar condicionado, e que foi quem primeiro expressou sua revolta. E o Diabo já sabe que em breve estará enfrentando uma verdadeira rebelião de almas pedindo revisão de sentença e perdão retroativo. E que seus jantares nunca mais serão os mesmos.

Tudo começou quando Wilde, fazendo uma cara feia depois de provar o vinho, comentou como estavam se tornando comuns, na Terra, o casamento entre homossexuais.
— Eu fui preso, execrado e excomungado por ser homossexual — disse Wilde. — Se fosse hoje, em vez de condenado e exilado, eu poderia ser, sei lá, um conselheiro matrimonial. Não faz muito, a mesma igreja anglicana que me mandou para cá ordenou um bispo gay. O que é que eu estou fazendo aqui?
O Diabo tentou mudar de assunto, mas Wilde continuou:
— Me transfira para o céu, D., nada pessoal contra você, mas aposto que o vinho lá é melhor. Sem falar no clima.

Não adiantou o Diabo argumentar que nem ele nem Deus são senhores dos tempos que mudam, ou da justiça divina, que não tem corregedoria ou apelação. Wilde só prometeu epigramas cada vez mais pesados, mas o Diabo se prepara para a gritaria dos indignados do Inferno.

Como os que foram mandados para o Inferno por usura, no tempo em que era pecado. E — como gosta de lembrar o Diabo, com um sorriso malicioso — a Igreja ainda não inventara o Purgatório justamente para acomodar os usurários, pois sem eles não haveria empréstimo a juros, bancos e sistemas financeiros.

Hoje a usura não só é o que faz o capitalismo rodar como é o capitalismo financeiro que manda no mundo. E, principalmente, não é mais pecado, pois os juros não são mais uma abominação aos olhos do Senhor, e até a Igreja tem bancos. E os condenados por usura no Inferno perguntam se não têm direito à mesma respeitabilidade conquistada pelos banqueiros, que hoje enriquecem em vida sem o risco de as suas almas penarem na morte, e à absolvição. Ou pelo menos a um up grade para o Purgatório.

Extraído de Zero Hora, 24 e 25 de Dezembro de 2007, página 03.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A Realidade Ficcionalizada ou a Ficcionalização do Real











A seca e seus retirantes constituem uma temática fortemenete desenvolvida pelo momento literário denominado Romance de 30. Alguns autores que produziram nessa época utilizaram a temática social como ponto de partida para suas criações literárias. Entre eles, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos deram ênfase ao sofrimento do retirante e ilustraram suas narrativas com seu universo árido, imerso em dor. Graciliano, em "Vidas Secas", deu ao retirante caráter humano, por meio de um narrador em terceira pessoa que mobiliza seu foco narrativo, colocando-o ao lado de cada personagem da família de Fabiano. Se até então o sertanejo surgia, com maior fôlego, como um tipo, a personagem Fabiano demonstra-nos que, apesar de sua “linguagem cantada, monossilábica e gutural”, o sertanejo observava o mundo e, mais que isso, experenciava-o.

Nesta postagem, sugiro a fruição de um conjunto de produções artísticas que observam a seca suas personagens. Podemos começar com um trecho de Graciliano, no qual fica evidenciado o foco narrativo e a percepção de mundo da personagem Fabiano que se sente emparedado, asfixiado, em meio a uma multidão que não o percebe:


“A multidão apertava-o mais que a roupa, embaraçava-o. De perneiras, gibão e guarda-peito, andava metido numa caixa, como tatu, mas saltava no lombo de um bicho e voava na catinga. Agora não podia virar-se: mãos e braços roçavam-lhe o corpo. Lembrou-se da surra que levara e da noite passada na cadeia. A sensação que experimentava não diferia muito da que tinha ao ser preso. Era como se as mãos e os braços da multidão fossem agarrá-lo, subjugá-lo, espremê-lo num canto de parede. Olhou as caras em redor. Evidentemente as criaturas que se juntavam ali não o viam, mas Fabiano sentia-se rodeado de inimigos, temia envolver-se em questões e acabar mal a noite”, pág. 75.

Eu não poderia deixar de citar o magistral vídeo clipe “Segue o Seco”, de Marisa Monte, dirigido por Cláudio Torres e José Henrique Fonseca, com genial fotografia de Breno Silveira, no qual temos a presença de três palavras centrais para o universo sertanejo: chuva, gado e seca. As imagens são belíssimas e trazem a sugestão do aspecto físico de diferentes “Fabianos”.



Para percebermos a intensidade do diálogo elaborado a partir da temática, sugiro a leitura de Leandro Gomes de Barros, cordelista que escreveu “A Seca do Ceará”:

“Seca as terras as folhas caem,
Morre o gado sai o povo,
O vento varre a campina,
Rebenta a seca de novo;
Cinco, seis mil emigrantes
Flagelados retirantes
Vagam mendigando o pão,
Acabam-se os animais
Ficando limpo os currais
Onde houve a criação.
(...)
Vê-se uma mãe cadavérica
Que já não pode falar,
Estreitando o filho ao peito
Sem o poder consolar
Lança-lhe um olhar materno
Soluça implora ao Eterno
Invoca da Virgem o nome
Ela débil triste e louca
Apenas beija-lhe a boca

E ambos morrem de fome”.



“Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente pra lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinha Vitória e os dois meninos”,
"Vidas Secas", pág. 128.

sábado, 22 de novembro de 2008

O pensamento de Nelson Rodrigues


O GÊNIO:
“Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

“Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.”

“Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar.”

“A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão.”

“Amar é ser fiel a quem nos trai.”

“Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora.”

“O ser humano é o único que se falsifica.”

“Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar de batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um são Francisco de Assis, com a luva de borracha e um passarinho em cada ombro.”

O "ANJO PORNOGRÁFICO":
“O homem começou a ser homem depois dos instintos e contra os instintos.”

“Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.”

“Morder é tara? Tara é não morder.”

“Todo tímido é candidato a um crime sexual.”

“Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.”

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.”

O MACHISTA:
“A mulher só se salva se for para o tanque. É o tanque a salvação da mulher”

“Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais. Só as neuróticas reagem, mas o homem não gosta de bater.”

“Toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma.”

“Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil.”


O REACIONÁRIO:
“Todo desejo é vil.”

“O homem começa a morrer na sua primeira experiência sexual.”

“O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.”

“Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.”

“Sexo é para operário.”

“Sou um reacionário libertário.”

O CRÍTICO:
“O brasileiro chamado de doutor treme em cima dos sapatos. Seja ele rei ou arquiteto, pau-de-arara, comerciário ou ministro, fica de lábio trêmulo e olho rútilo.”

“Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.”

“O brasileiro é um feriado.”

“No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte.”

“Os crentes e o padre é que estragam a missa.”

“O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.”

“Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: a nossa.”

O TORCEDOR:
“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.”

“Um Garrincha transcende todos os padrões de julgamento. Estou certo de que o próprio Juízo Final há de sentir-se incompetente para opinar sobre o nosso Mané.”

“Um time que tem Pelé é tricampeão nato e hereditário.”


“O futebol é passional porque é jogado pelo pobre ser humano.”

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

"A Cidade na Praça", de Ana Carolina Lersch Eidam

Final de Feira do Livro! Longe dos debates repetitivos que sempre marcam essa enorme festa da literatura em Porto Alegre acerca das suas opções culturais/comerciais, a crônica da jovem Ana Carolina, 17 anos, tenta resgatar o valor simbólico que este evento tem para a cidade: a integração que a Feira estabelece com a paisagem urbana; um outro olhar sobre o centro "sujo" da cidade, uma nova forma de contemplação que só a Feira do Livro traz à capital gaúcha é o que propõe Ana, estudante do terceiro ano do Ensino Médio da Escola Martinho Lutero, de Cachoeirinha, RS, que eu, colaborador do Devaneio Literário, Vinicius Rodrigues, orgulhosamente, apresento como minha aluna. Aprecie!

*


Era lá que tudo acontecia. Já faziam 54 anos que era dessa forma. Cerca de duas semanas antes começava a ser preparada: vinham aqueles que planejavam, aqueles que construíam, aqueles que carregavam e montavam palcos, stands, passarelas e corredores. Depois que tudo estava pronto, os espaços antes vazios passavam a ser ocupados por todo tipo de material cultural possível, dando à praça, antes esquecida, um novo sopro de vida.
No princípio, era somente na praça, que sob suas árvores abrigava os seres curiosos que iam e vinham de um lado para o outro, sedentos por cultura e conhecimento. Depois ela foi crescendo e até nos dias de chuva já eram possíveis estes momentos que eram únicos no ano. Até que pequenos seres aumentaram sua curiosidade e passaram a procura-la incansavelmente, de forma que foi necessário atravessar a rua e explorar a orla do rio, nos inúmeros armazéns do cais do porto.
O que ela mais tinha a oferecer eram livros. De todas as cores, tamanhos, idiomas e valores. O paraíso das letras sempre a encantou e fez com que os outros se encantassem por ela. À medida que foi crescendo, percebeu que o mundo dos livros não acontecia somente em páginas impressas e encapadas. Foi assim que passou a ser visitada pelo teatro, a música, o cinema e até as artes plásticas.
Tornou-se um passeio familiar, um ponto de encontros de amigos, um centro de compras, um lugar que suscitava discussões e estimulava mudanças. Transformou-se em uma cidade dentro de uma praça, um espaço de refúgio para aqueles que, cansados da rotina do trabalho, buscavam um lugar para descansar sem esquecer que também eram compostos por cultura.
Passou a ser aguardada ansiosamente por aqueles que procuravam encontrar seus autores favoritos, tornar-se próximos a eles, conversando e pedindo autógrafos. Também por quem esperava aprender algo não convencional nos diversos cursos que oferecia.
Era quase como um circo itinerante, suscitando todo o tipo de emoção, tanto na sua espera quanto na chegada, encantando pessoas de todos os tipos e idades e trazendo um pouco de alegria e uma aura mágica à natureza cinzenta da cidade. Mas, assim como o circo, chegava uma hora em que era necessário ir embora. Tudo voltava à normalidade: a praça era novamente esquecida, os armazéns do cais despovoados e as pessoas retomavam a ordem natural de suas obrigações.
Sua magia ficava, então, presa nos livros que, quando abertos, despertavam aquele sentimento de um ser curioso que sentava embaixo das árvores para aproveitar a Feira do Livro. Esta sim, depois de ir embora, só lamentava profundamente ser tão sozinha em uma cidade com tantas criaturas sedentas por cultura.

Debaixo das árvores frondosas
Presenteada com um sopro suave,
Ela acontecia.
Embalada pelas águas do rio
Aquecida por um sol ardente,
Ela movimentava mentes.
Por sua forte personalidade
Por ser capaz de criar idéias
Ela graciosamente destoava
Da cinzenta cidade
Com muitos carros nas ruas
E bêbados nas praças.
Sua macia intensidade
Sua magnífica diversidade
Lembrava que não se perdera tudo
Lembrava que ainda não se conquistara tudo
Era muito mais que uma feira
Era muito mais que apenas livros
Era tudo
Que logo será nada
E terá que se esperar um ano inteiro
Para que volte a ser tudo outra vez.

Ana Carolina Lersch Eidam

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Poesia e cotidiano: a lírica tirada da página policial

Poesia e cotidiano confundem-se em três textos brilhantes de grandes poetas brasileiros que renovaram a lírica nacional ainda na primeira metade do século XX. Quintana e Drummond trazem tentativas extremamente pertinentes de propor um diálogo entre o sublime e os aspectos mais prosaicos. Em Bandeira, um desafio: mexer com o leitor com uma linguagem extremamente direta para um texto em versos. Nos três, entretanto, um elemento permanente: a morte, elemento-chave das notícias e, principalmente, das páginas policias de qualquer texto jornalístico - o jornal, claro, o texto prosaico por excelência.


"Morte do Leiteiro", de Carlos Drummond de Andrade

A Cyro Novaes

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas,
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morador na Rua Namor,
empregado no entreposto,
com vinte e um anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já tem pressa o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira o pouco de leite
disponível em nosso tempo
avancemos por esse beco
peguemos o corredor,
depositemos o lixo...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve

Meu leiteiro tão sutil,
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para a sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.



"Pequena Crônica Policial", de Mário Quintana

Jazia no chão, sem vida,
E estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grande beleza...
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
As fundas marcas da idade,
Das canseiras, das bebidas...
Triste da mulher perdida
Que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
Foi levada ao necrotério.
E quando abriram, na mesa,
O seu corpo sem mistério,
Que linda e alegre menina
Entrou correndo no céu?!
Lá continuou como era
Antes que o mundo lhe desse
A sua maldita sina:
Sem nada saber da vida,
De vícios ou de perigos,
Sem nada saber de nada...
Com a sua trança comprida,
Os seus sonhos de menina,
Os seus sapatos antigos!



"Poema tirado de uma notícia de jornal", de Manuel Bandeira

João gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Sem narrativa, não há memória; sem memória, não há vida.

"Fahrenheit 451", de Ray Bradbury, de 1953, é até hoje um marco da literatura mundial pela abordagem contundente do poder da leitura e, principalmente, da importância da narrativa em nossas vidas. Juntamente com livros sensacionais como "1984", de George Orwell e "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, tornou-se um clássico da literatura de ficção científica dentro de um segmento que conhecemos por distopia, onde a abordagem das estórias faz sempre questão de vislumbrar um futuro pessimista e, por vezes, trágico para a raça humana, dentro dos valores pré-estabelecidos no presente na nossa sociedade.

Para Bradbury, assim como outros autores, o distanciamento com a leitura fatalmente faria com que se percebesse o quão modificador é um livro para aquele que o lê. Seguindo o raciocínio de que a humanidade freqüentemente retorna a posturas arbitrárias, apostando na censura e confiando sua liberdade a governos totalitários vez por outra durante a história, o ficcionalista americano coloca-nos num futuro onde os livros são queimados por bombeiros (que não mais apagam o fogo, mas sim provocam-no), para que a ordem social seja preservada. O que faz de Ray Bradbury e seu romance um diferencial, não é só sua visão de futuro. Pensar que a Cultura é o primeiro grande elemento afetado pelos totalitarismos é algo preconizado e já revisto muitas vezes, em outras obras. O autor vai mesmo a fundo na questão do poder da narrativa: sem literatura, o ato de narrar gradualmente se perde na sociedade e, logo, a memória também vai apagando-se - um prato cheio para, inclusive, modificar-se, naturalmente, a escrita da história da humanidade para fins particulares, pois a escrita para as pessoas comuns também é proibida neste futuro hipotético. E mais: sem memória, sem narrativa até mesmo no cotidiano, simplesmente, a vida fica vazia, os atos sociais tornam-se parcos e simplórios; sem a presença da leitura - de qualquer tipo - os homens e mulheres ficam infelizes e dóceis e não refletem. Tudo muito bem cuidado e trabalhado por Bradbury.

Há uma versão da obra para o cinema, de 1966, que marcou época, dirigida pelo mestre francês François Truffaut, que merece uma boa olhada também. Algumas cenas-chave podem ser vistas aqui:



O QUE SIGNIFICA FAHRENHEIT 451?


QUIMAR LIVROS POR QUÊ?